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Com ajuda do CAPS ad, mulher retoma a vida depois de quase 20 anos nas drogas

07 março 2018 - 10h13Prefeitura de Corumbá

Corumbaense, casada, 43 anos e cinco filhos. Por 17 anos, viciada em pasta base de cocaína. Terminando o tratamento no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS ad) e há um ano e meio sem recaídas, Yasmin* respira hoje aliviada. “O segredo é Deus, essa equipe do CAPS ad e nossa própria força de vontade”.

Em 2014, depois de denúncia feita por algum morador, os filhos de Yasmin foram retirados do lar e passaram a viver temporariamente em uma Casa de Acolhimento da cidade. O mais novo tinha aproximadamente cinco anos de idade, com ele havia mais quatro irmãos. Hoje, com nove anos e dois irmãos na fase adulta, consegue viver em um lar mais feliz e tranquilo.

Yasmin ficou desesperada ao perceber que poderia perder para sempre a guarda dos filhos. Contatada pelo Conselho Tutelar, uma das conselheiras sugeriu que ela buscasse ajuda no CAPS ad. “Para você chegar aqui, você tem que assumir que realmente precisa de ajuda. É muito difícil aceitar para si mesmo que você precisa de ajuda. Foi a conselheira que me trouxe, foi emocionante, porque chegar até aqui sozinha, na porta do CAPS, era impossível”, contou Yasmin.

A condição para ela não perder a guarda era o tratamento e, por isso, resolveu aceitar ajuda. No vício, não chegou a ficar pelas ruas, mas usava drogas em casa com o marido, que também era viciado, na presença dos filhos. “Meus filhos estavam aparentemente bem, gordinhos, arrumadinhos, mas, na realidade, estavam destruídos”.

Yasmin resolveu iniciar o tratamento para conseguir pegar os filhos de volta, mas, foi uma decisão equivocada. “Na realidade, você não pode fazer isso por alguém. Acabou acontecendo de eu conseguir pegar meus filhos do abrigo, mas tive recaída. Foi a pior coisa que aconteceu”, contou.

Percebendo a possibilidade de perder definitivamente os filhos, dessa vez espontaneamente buscou ajuda no CAPS ad. “É muito difícil porque você sente dores horríveis quando está em abstinência. A sorte é que temos um médico aqui. Era tanta dor que eu não conseguia sentar. Meus órgãos na barriga se retorciam, doía muito e o médico me explicou que se tratava de abstinência. Ele dizia que meu corpo estava pedindo droga”.

Ela disse que depois de sair do consultório ficou bastante triste, mas lembrou que mesmo o corpo pedindo droga, a sua mente podia dizer não. “Eu pensei: meu corpo está pedindo, mas quem manda nele sou eu. É o meu cérebro que comanda ele, então, falei ao meu próprio corpo que quem mandava nele era eu e nunca mais usei droga”.

Dessa segunda vez, ela percebeu que não era tanto pelos filhos que recomeçou o tratamento, mas por ela mesma. “Você tem que vir para cá buscar ajuda por você mesmo, não por ninguém, porque isso é um inferno em vida. ‘Boqueiro’ te humilha, você anda de cabeça baixa, fica depressivo, não tem atitude, você chega ao fundo do poço. Eu não sei como meu casamento não acabou. Meu marido também era usuário, mas parou de usar junto comigo, sendo que ele conseguiu sair sozinho, enquanto eu precisei de ajuda. Eu estava em situação pior. Eu ficava 48 horas usando droga, passava 15 dias sem dormir, era horrível”. 

Agora, Yasmin já sente o organismo bem melhor e não sente mais dores. Ela contou que, nos primeiros três meses de abstinência, tomou medicamentos, depois disso, foi a própria força de vontade e a ajuda que recebeu que fizeram com que ela deixasse o vício. “As pessoas têm que ter uma atitude na vida, ou vai para a escuridão, ou vai para a luz. Eu quero agora usufruir de coisas boas”, afirmou. “As pessoas têm que ser mais humildes e pedir ajuda, primeiro de Deus e depois da equipe do CAPS ad. Um das coisas que nos ajuda bastante é o sorriso deles porque nos ajuda a nos sentirmos vivos, a acreditarmos que somos importantes”, disse Yasmin que não pôde conter as lágrimas.

Sonhos não morrem

Yasmin continua o tratamento no CAPS ad, mas agora só passa no Centro duas vezes na semana. Ela já participa do projeto Reabilitar, da Secretaria Municipal de Assistência Social. Por isso, desde o dia 02 de agosto do ano passado, trabalha em um dos Centros de Referência de Assistência Social em Corumbá (CRAS).

“Esse trabalho me mostra que sou amada pelas pessoas que chegam lá no CRAS porque tento fazer o melhor para elas, como já fizeram para mim um dia. Meus filhos iam para o CREAS e eram bem recebidos e hoje quando chega uma criança e me dá um abraço, isso não tem preço. Se chega um idoso e me dá um sorriso e um bom dia, você sente que a pessoa fica feliz em te ver e vice-versa, não tem preço, é algo muito importante”.

O principal plano de Yasmin daqui para frente é passar em um concurso público. “Eu quero reaprender a viver, tudo para mim é novidade. Parece que não, mas, você chegar em uma loja e comprar um sutiã, comprar perfume para cada um dos seus filhos e colocar no quarto, comprar uma colcha de bichinhos para cada um e colocar na cama... É uma pena que certas pessoas não consigam entender isso, que o ontem passou, hoje está passando e precisamos olhar para frente porque agora quero viver”, afirmou.

“Eu não quero mais pensar no que passou. Quando vejo alguém aqui que quer recair, eu ajudo e digo que é possível porque eu estou aqui. O segredo é Deus que transforma, reconstrói sua família, te concede saúde, Deus preenche cada setor da sua vida. Para sair das drogas é Deus, essa equipe aqui do CAPS ad, que nos ajuda a lidar com a vontade de voltar ao vício, e a nossa própria força de vontade”, assegurou Yasmin.

*Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.

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