Artigo de autoria do ator e diretor teatral, Salim Haqzan.
(Foto: Marco Calábria)
Entre os que nela viviam, havia artistas talentosos, produtivos, inventivos — e nada medíocres. Mesmo sem muitos espaços para mostrar o que produziam, mesmo sem depender de incentivos oficiais, seguiam criando com coragem e paixão. Nunca foram medíocres. O que lhes faltava não era talento, era visibilidade.
Um dia, a cidade foi escolhida para sediar um grande festival cultural, trazido de fora, como quem planta uma semente em solo fértil. E aquele solo era mais que fértil: era rico de identidade, de história, de natureza exuberante e de um multiculturalismo raro, por estar na confluência de três países. Um verdadeiro caldeirão de possibilidades criativas.
Quando o festival foi anunciado, a pessoa que naquele momento representava a Cultura local se deu conta de uma verdade incômoda: os artistas da própria cidade eram quase invisíveis para o seu próprio povo. Suas obras, suas músicas, seus espetáculos, quase nunca eram vistos, a não ser por aqueles que faziam questão de ir até suas casas ou ateliês. Era como se a arte local vivesse em segredo, sussurrando para poucos.
Tomada por empatia e visão, ela teve uma ideia: e se aquele festival servisse também para iluminar os talentos da própria cidade? E se os artistas que vinham de outros lugares encontrassem ali não apenas plateia, mas também pares, parceiros, pontes?
Reuniu um grupo de sonhadores e organizou uma verdadeira ocupação cultural: exposições espalhadas pelos bairros, espetáculos teatrais em praças, shows musicais em coretos, oficinas de dança, circo, gastronomia e artesanato em mercados e centros comunitários. A arte tomou as ruas, tomou os espaços, tomou o coração das pessoas.
O festival aconteceu. Mas o mais bonito foi o que veio depois.
Houve troca. Houve reconhecimento. Houve inspiração. Gente que nunca tinha pisado num palco passou a sonhar com ele. Crianças começaram a desenhar mais, dançar mais, cantar sem medo. Pessoas passaram a consumir arte feita ao lado de casa, a comprar o que era produzido ali, a valorizar o que era de dentro, não só o que vinha de fora. E com isso, a arte começou a gerar renda, trabalho, oportunidades — como sempre pôde e pode.
Salim Haqzan é fundador do grupo GETT (Grupo de Experimentos e Truques Teatrais) em Corumbá. Foto: Marco CalábriaE assim fez ecoar o verso do poeta: “Todo artista tem de ir aonde o povo está.”
Porque a arte salva, sim. Mas ela também movimenta a economia, cria empregos, alimenta sonhos e fortalece vínculos. Ela cuida da mente, do coração e da alma. E, sobretudo, ela mostra que não há periferia para o talento, nem margem para a beleza. Basta dar espaço.
E essa cidade, uma vez esquecida, passou a ser lembrada. Por seus artistas. Por sua arte. Por sua gente.
E essa cidade talvez nunca existiu. Se existiu, foi esquecida.
Salim Haqzan, 2025
Receba as notícias no seu Whatsapp. Clique aqui para seguir o Canal do Capital do Pantanal.
Leia Também
Corumbá e Ladário registram máximas de 35°C nesta quarta-feira
IPVA 2026: terceira parcela vence hoje e exige atenção do contribuinte
Lula sanciona lei que amplia licença-paternidade
Manutenção emergencial pode deixar bairros de Corumbá sem água nesta terça (31)
Sanesul alerta para falta de água em seis bairros de Ladário nesta terça (31)
IBGE atualiza limites territoriais do Brasil; veja o que mudou
Colisão entre carro e moto deixa jovem ferida no bairro Maria Leite
Campanha arrecada doações para moradores da APA Baía Negra
Corumbá sedia campeonato de tiro prático e impulsiona esporte em MS