Sexta-feira, 28 de Agosto de 2026
Fronteira

Dentro da operação: Como o Exército fiscaliza a fronteira em Corumbá

28 ago 2026 - 07h22   atualizado às 09h57

Victoria Mondego

Dentro da operação: Como o Exército fiscaliza a fronteira em Corumbá Condutor da embarcação (Foto: Capital do Pantanal)

A bordo de um ferryboat, a fronteira entre Brasil e Bolívia não aparece como uma linha. Não existe cerca, muro ou faixa pintada sobre o Rio Paraguai indicando onde um país termina e o outro começa. Enquanto navegamos, a paisagem segue contínua. Para os militares que trabalham na região, porém, cada deslocamento exige atenção ao território em que estão operando.

Durante cerca de cinco horas, a reportagem acompanhou parte da rotina de fiscalização realizada pelo Exército na região de Corumbá. No Rio Paraguai, o percurso foi feito com equipes responsáveis pelo controle das vias fluviais, em uma operação que reúne patrulhamento, monitoramento, inteligência e abordagens.

O ferryboat, embarcação na qual navegavamos, serve como base de operações. A partir dali, os militares apresentaram as embarcações empregadas durante as ações e as diferentes funções de cada uma. A São Félix, por exemplo, é blindada e oferece proteção à equipe durante a atuação. Outra, mais veloz, é utilizada quando há necessidade de uma resposta rápida, inclusive em uma eventual tentativa de fuga.

Fiscalização com blindado e lancha de alta velocidade.Foto: Capital do Pantanal

Nas abordagens, os militares verificam a documentação das embarcações e, principalmente, as cargas transportadas. A inspeção ganha importância diante da posição geográfica de Corumbá e da circulação de pessoas e mercadorias entre os dois países. Quando alguma irregularidade é identificada, a ocorrência segue conforme a natureza do caso e as atribuições de cada órgão.

A movimentação das equipes também pode ser acompanhada durante a navegação por meio do sistema de georreferenciamento utilizado pelo Exército. Em uma tela, a posição das tropas aparece em tempo real, permitindo que quem coordena a operação saiba onde cada equipe está e reorganize os deslocamentos conforme a necessidade.

Embarcação sendo abordada e revistada.Foto: Capital do Pantanal

O acompanhamento à distância permite que uma patrulha seja localizada mesmo quando está em outro ponto da região. Uma equipe pode atuar no rio enquanto outras permanecem em terra e, se necessário, tropas podem ser deslocadas de um ambiente para outro.

“O comandante precisa se manter atento ao que acontece lá e ao que acontece aqui. Aqui pode estar tranquilo, mas de repente lá tem alguma coisa que gere atenção.”, explicou o general de brigada Rafael Novaes, comandante da 18ª Brigada de Infantaria de Pantanal.

Operação no C2.Foto: Capital do Pantanal

Essa capacidade de movimentação, também exige uma estrutura de comando. A coordenação da atuação no estado e feita pelo Comando Militar do Oeste (CMO), enquanto a Brigada coordena as chamadas peças de manobra, os batalhões responsáveis pela execução das missões. As tropas podem atuar na mesma área ao mesmo tempo, mas cumprir tarefas diferentes, ou serem deslocadas para pontos distintos conforme a necessidade.

A operação não se limita às tropas do Exército. O trabalho integrado com outros órgãos permite responder a situações diferentes das encontradas durante uma fiscalização de cargas. Segundo o comandante, uma dessas situações pode envolver, por exemplo, a tentativa de levar irregularmente uma criança para a Bolívia. Em uma mesma área, diferentes forças podem atuar ao mesmo tempo, cada uma cumprindo a missão que está dentro de sua competência.

Tela de referência do Posto Tático.Foto: Capital do Pantanal

Na fronteira de Corumbá, essa divisão de atribuições também vale para o outro lado do Rio Paraguai. Em uma eventual perseguição, os militares brasileiros não podem simplesmente atravessar para continuar a ocorrência. A força boliviana pode ser acionada para dar continuidade à atuação dentro do próprio território. Os militares chamam esse tipo de trabalho de operação espelhada, em que cada força atua a partir de seu lado da fronteira.

Da água, a fiscalização acompanhada pela reportagem seguiu para a estrada. No posto de controle Lampião Aceso, ponto estratégico no trecho da rodovia federal BR 262, que liga Corumbá a Campo Grande, o fluxo de veículos é constante nos dois sentidos. Por isso, abordar não significa simplesmente parar todos os que passam.

O ponto mantém um efetivo de um pelotão, com cerca de 30 militares. As equipes observam os veículos, realizam entrevistas e, a partir desses critérios, selecionam quais serão submetidos a uma revista mais detalhada. Dessa forma, o trabalho alcança tanto quem chega a Corumbá quanto quem deixa a região em direção a Campo Grande sem interromper completamente a circulação.

Com auxílio de tecnologia militares avaliam veículos para autuação Foto: Capital do Pantanal

Entre os equipamentos utilizados pela equipe está um binóculo com recursos de visão termal e noturna. Segundo os militares, o aparelho amplia a capacidade de observação mesmo em condições de pouca luminosidade e permite identificar, a cerca de 200 metros, detalhes como a placa de um caminhão. O equipamento pode permanecer fixo ou ser retirado para utilização em outros pontos.

A seleção dos veículos pode resultar em abordagens que levam tempo. Em uma delas, acompanhada pelo Capital do Pantanal, um ônibus permaneceu cerca de 40 minutos sob fiscalização. Com apoio de um cão, a equipe verificou o veículo e seus diferentes compartimentos antes de liberá-lo. Nenhum material proibido foi encontrado.

O cão é utilizado nas buscas justamente pela capacidade de identificar materiais que podem passar despercebidos durante uma revista convencional. Segundo os militares, a precisão do faro reduz a margem de erro e amplia a capacidade de detecção das equipes, especialmente em veículos e cargas que precisam ser examinados com mais cuidado. Quando uma substância entorpecente é encontrada, a atuação dos militares não termina na apreensão. A tropa também atua diante de ocorrências envolvendo armas, munições, explosivos e produtos sujeitos a descaminho.

Fiscalização dos pertences de passageiros Foto: Capital do Pantanal

“Nós não só temos autoridade para atuar, como a gente precisa lembrar que é um dever. E não importa a quantidade de substância entorpecente. Desde a menor quantidade a uma quantidade expressiva, a gente vai identificar e fazer aqui a apreensão”, afirmou o comandante Rafael Novaes.

Nos casos de entorpecentes, os envolvidos e o material apreendido são formalmente conduzidos à Polícia Federal, que dá continuidade aos procedimentos previstos para a ocorrência. Cada órgão segue suas próprias atribuições dentro da estrutura integrada de fiscalização mantida na região.

A área de atuação da 18ª Brigada de Infantaria de Pantanal se estende por cerca de 822 quilômetros de fronteira, entre os limites com a Bolívia e o Paraguai, e envolve diferentes unidades militares. De janeiro a agosto deste ano, as ações realizadas pela tropa já representaram aproximadamente R$ 920 mil em prejuízo relacionado a ilícitos.

Mais do que os números, entretanto, é no contato direto com a fiscalização que a dimensão desse trabalho fica evidente.

No rio, uma embarcação pode navegar em uma área onde a proximidade entre os países não é percebida visualmente. Na estrada, um veículo pode passar sem ser parado ou ser selecionado para uma revista que leva quase uma hora. Entre os dois cenários, existe uma estrutura de militares, equipamentos, inteligência e comunicação trabalhando para decidir onde olhar, quem abordar e quando agir.

Em uma fronteira extensa, marcada pelo trânsito diário de pessoas, veículos, cargas e embarcações, a fiscalização não depende apenas daquilo que é apreendido. Ela começa muito antes, na observação, na seleção e na decisão sobre onde e como agir.

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