“Na prática, ninguém sabe o que é o Sisfron. Só o Exército sabe.” A crítica vem de quem está há anos na linha de frente do combate ao crime na fronteira mais sensível do país. Para o tenente-coronel Wilmar Fernandes, diretor do DOF (Departamento de Operações de Fronteira), o problema não é a falta de discurso, mas a distância entre os grandes programas federais e a realidade da ponta. “Nunca recebemos imagem, mapa ou apoio operacional”, afirma, ao resumir a percepção de que a vigilância tecnológica anunciada em Brasília raramente se traduz em ferramenta concreta para quem atua no terreno.
A maior apreensão de cocaína da história da Espanha em alto mar ajuda a dimensionar essa contradição. A operação, que interceptou no Atlântico um navio com quase 10 toneladas de droga escondidas em uma carga de sal, avaliada no atacado em cerca de R$ 900 milhões, montante equivalente ao orçamento anual de mais de 90% dos 5.571 municípios brasileiros, revelou que a cocaína havia entrado no Brasil e foi daqui embarcada para a Europa.
No fim de dezembro, a embarcação foi localizada no Ceará. O episódio expõe mais do que a sofisticação logística do tráfico internacional: evidencia que o Brasil deixou de ser apenas rota secundária e consolidou-se como hub logístico global do narcotráfico.
Mesmo quando o destino é europeu, repete-se o padrão: cocaína produzida na Bolívia, no Peru e na Colômbia cruza fronteiras frágeis, é “nacionalizada” por facções brasileiras em parceria com cartéis andinos e segue para o exterior por portos e rotas marítimas.
Corredor global
Para Wilmar Fernandes, o caso espanhol apenas confirma o que a rotina da fronteira já mostra. “O crime organizado se estabelece entre dois países (Paraguai e Bolívia) e usa o Mato Grosso do Sul como corredor para Europa e EUA.” A declaração explicita a versatilidade das facções e cartéis, capazes de operar simultaneamente em rotas que abastecem dois continentes pelo Atlântico.
A participação da Polícia Federal na cooperação internacional reacendeu o debate sobre a assimetria da política de segurança: o Brasil é forte na articulação externa, mas frágil no controle interno, sobretudo em fronteiras terrestres, áreas portuárias e corredores logísticos.
Muitas vezes, a estratégia internacional privilegia o flagrante no destino para desarticular redes maiores. O problema é quando isso deixa de ser exceção e vira regra, revelando a desigualdade estrutural entre inteligência e presença: coopera-se bem fora, mas não se consegue segurar dentro.
Tenente-coronel Wilmar Fernandes, diretor do DOF, alerta que o crime é dinâmico. Foto: Divulgação
Crime em trânsito
À frente do DOF, unidade criada em 1987 e especializada em operações na faixa de fronteira, Fernandes descreve um cenário de pressão permanente. O crime é dinâmico: alterna ciclos de contrabando de agrotóxicos, migra para o cigarro, depois para a colheita da maconha — hoje cada vez mais sofisticada, com produtos de maior valor agregado — e avança no uso de aeronaves e pistas clandestinas para transportar cocaína rumo a portos como Santos e Paranaguá. “É uma caça de gato e rato permanente”, resume.
O comandante confirma que PCC, Comando Vermelho e facções da Bahia, Santa Catarina e Rio de Janeiro atuam na faixa de fronteira, ao lado de clãs paraguaios e bolivianos que controlam parte da produção e da logística inicial da droga. Mas rejeita a ideia de “domínio territorial” no molde do que ocorre em comunidades do Rio de Janeiro. “Aqui não existe domínio de território como no Rio. Existe circulação, trânsito criminoso.”
A distinção ajuda a explicar o paradoxo de Mato Grosso do Sul: apesar de ser rota pesada do tráfico internacional, o Estado registra menos violência ostensiva que outras regiões. O crime que busca os lucros da cocaína evita confronto direto e aposta na invisibilidade.
Não por acaso, diferentemente de outros pontos do país, não há ataques a bancos, episódios de “novo cangaço” ou domínio armado de cidades na fronteira sul-mato-grossense. O cálculo das organizações é claro: manter o perfil baixo reduz o risco de chamar a atenção das forças de segurança e preserva a fluidez das rotas.
Integração na raça
A efetividade do combate esbarra em limitações objetivas. O DOF opera com 120 policiais para cobrir 1.600 quilômetros de fronteira com Paraguai e Bolívia. Para Fernandes, trata-se de um efetivo reduzido diante da dimensão do desafio — ainda assim, a unidade se tornou referência nacional em integração operacional.
Um caso recente ilustra: informações levantadas pelo DOF sobre uma grande carga de cocaína que sairia da Bolívia foram repassadas a forças de outros estados; a apreensão ocorreu em São Paulo, em meados do ano passado, com três toneladas de droga interceptadas em uma carreta.
Para o comandante, o episódio mostra como a cooperação flui quando não é travada por disputas institucionais. “A integração funciona quando não há vaidade.” E completa: “O DOF conversa com todo mundo — Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Exército, polícias de outros estados.”
É também por isso que a crítica ao Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras) ganha peso. Vendido como espinha dorsal tecnológica da vigilância, o programa permanece opaco para quem atua na ponta. “Se produz alguma coisa de interesse operacional para as polícias, nós não sabemos”, afirma Fernandes.
A avaliação coincide com queixas feitas pela Polícia Federal em audiências da CPI do Crime Organizado: investimento elevado, retorno prático incerto. Na fronteira real, a vigilância continua sendo feita com patrulhas, inteligência compartilhada e, cada vez mais, com tecnologia embarcada nas próprias viaturas estaduais.
O governo federal e seu “intocável” Ministério da Defesa fazem cara de paisagem para o desperdício de recursos públicos, caracterizado por investimentos em equipamentos que, segundo a CPI, estão se tornando obsoletos.
Estrutura frágil
A percepção de fragilidade estrutural é reforçada por quem já comandou a segurança pública em cidades estratégicas da faixa de fronteira. Para o coronel da reserva Alírio Villasanti, ex-comandante da PM em Corumbá e ex-integrante do DOF, a apreensão recorde na Espanha apenas confirma uma realidade conhecida em Mato Grosso do Sul.
Embora a PF não tenha divulgado detalhes, ele avalia que a probabilidade de a droga ter entrado pelo Estado é real. “É pela Bolívia. Não é só via terrestre: há aviões voando baixo, fora do radar”, afirma o especialista. Segundo ele, o entrave central não é a falta de diagnóstico, mas de condições de combate. “Não existe uma estrutura de enfrentamento. O que funciona, a gente não sabe, porque um não fala para o outro. Falta integração.”
Villasanti é direto ao apontar a insuficiência da presença federal. “A Polícia Federal tem gente valorosa, mas está desestruturada para dar conta dessa imensidão. Quem faz alguma coisa ali, de forma corajosa, é o DOF — mas ele é pequeno para a enormidade do problema.” Na avaliação do coronel, a lógica institucional empurra a PF para operações de maior visibilidade, como os crimes de colarinho branco, enquanto a fronteira segue dependendo de unidades estaduais com poucos recursos.
A crítica avança para o plano institucional. Para Villasanti, o Brasil permanece preso a um modelo atrasado de investigação criminal. “Quando você conversa com policial europeu, eles dizem: vocês são polícia pela metade. Aqui se separa quem previne de quem investiga".
Ele defende a adoção do ciclo completo de polícia e é especialmente duro com o modelo cartorial. “Não se pode deixar um policial militar seis ou sete horas numa delegacia para registrar ocorrência de menor potencial ofensivo. É desumano e antieconômico. Enquanto ele está lá, muita coisa acontece fora.” Para o coronel, essa engrenagem ajuda a explicar por que o país ficou para trás em investigação criminal justamente quando o crime organizado se sofisticou.
Na mesma linha, sustenta que nenhuma política séria de segurança pública funciona sem controle efetivo das fronteiras., que é por onde entra a droga e armas que geram a violência nas metrópoles. “Qualquer plano passa necessariamente por aquilo que entra no país.” Ele defende batalhões específicos de fronteira, maior participação permanente das Forças Armadas em apoio às polícias e o reconhecimento da faixa de fronteira como área estratégica de soberania.
O alerta se estende ao futuro: com a consolidação da Rota Bioceânica, que deve ampliar o fluxo logístico por Mato Grosso do Sul, Villasanti vê risco de expansão do narcotráfico se não houver planejamento. “Toda grande obra traz desenvolvimento, mas traz problema junto se o Estado não se antecipa.”
Coronel da reserva Alírio Villasanti, ex-comandante da PM em Corumbá, defende a adoção do ciclo completo de polícia e é especialmente duro com o modelo cartorial. Foto: Arquivo/AlemsVácuo de poder
As estatísticas ajudam a dimensionar o desafio. Boa parte da cocaína que circula no país entra pelas fronteiras com Paraguai e Bolívia, em áreas de grande produção agropecuária e baixa densidade populacional, o que facilita a logística criminosa. No último ano, a Polícia Federal apreendeu cerca de 70 toneladas de cocaína, e a Polícia Rodoviária Federal confiscou 42 toneladas — estimativas indicam que até 80% desse volume entrou pela fronteira de Mato Grosso do Sul.
Esse quadro ajuda a entender por que a fragilidade das fronteiras se combina hoje à ausência de uma política nacional consistente. O Estado responde com operações episódicas, sem doutrina permanente, sem orçamento estável e sem coordenação duradoura entre Polícia Federal, Forças Armadas e polícias estaduais.
Em Mato Grosso do Sul, isso aparece de forma quase didática: rotas conhecidas, pistas clandestinas recorrentes, tráfico aéreo e fluvial contínuo e presença estatal intermitente. O resultado é um vácuo de poder que favorece a expansão do crime organizado — e alimenta, no Congresso, uma agenda punitivista que cresce à sombra da ausência de estratégia do Executivo.
Esse vazio institucional se aprofundou com a instabilidade no comando político da área. A saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça e Segurança Pública, após alegar falta de recursos e de condições para tocar a agenda, deixou em suspenso iniciativas centrais.
Na carta de demissão, o ministro citou “limitações políticas, conjunturais e orçamentárias”, revelando que o governo Lula 3 não conseguiu construir uma política nacional minimamente consistente para enfrentar os desafios da segurança. Pressionado por governadores da direita e pela bancada da bala no Congresso, o Planalto hesita em coordenar ou definir metas claras, abdicando da liderança federativa.
A escolha do promotor Wellington César Lima e Silva para substituir Lewandowski reforçou a percepção de transição defensiva. Advogado de confiança do presidente e com trajetória no Ministério Público, mas sem histórico na área de segurança pública, Lima e Silva assume uma pasta sob forte pressão, em um momento em que a criminalidade e o empoderamento das facções colocaram o tema no topo das preocupações da população e no centro da disputa eleitoral.
Segundo pesquisa recente da Ipsos, 45% dos brasileiros apontam crime e violência como o principal problema do país, à frente de corrupção e saúde — dado que traduz um mal-estar alimentado pela percepção de que o Estado perdeu capacidade de enfrentar tanto a criminalidade cotidiana quanto o crime organizado.
O novo ministro herda desafios imediatos: destravar na Câmara a PEC da Segurança e o PL Antifacção, projetos que ficaram pelo caminho com a saída de Lewandowski, e tentar dar coesão a uma política que hoje inexiste como estratégia de Estado.
Até aqui, o governo e os partidos de esquerda subestimaram o peso da violência na agenda pública, enquanto a direita capitalizou o medo legítimo da população com respostas baseadas quase exclusivamente no uso da força cuja base é confronto pelo confronto, que são fragmentados e simbólicos. Facções e cartéis, por sua vez, não aguardam PEC nem comissão especial: operam no vácuo e em ritmo próprio, muito mais rápido que o do Estado.
Nesse contexto, a apreensão recorde na Espanha não deve ser lida como um episódio isolado de sucesso policial internacional. Ela se insere em um padrão sistêmico: fronteiras frágeis, crime transnacional articulado, ausência de política nacional contínua e crise de liderança política na área de segurança. Mais do que expor a sofisticação do tráfico, o caso revela a dificuldade do Brasil em liderar uma estratégia consistente de enfrentamento ao crime organizado.
No meio desse cenário, a experiência concreta da fronteira desmonta discursos fáceis. Para Wilmar Fernandes, o problema não se resolve com slogans nem com sistemas opacos. Ele acha que dá, sim, para fazer um serviço melhor — com mais integração real, menos vaidade institucional e mais presença efetiva.
Não se trata de prometer o fim do crime, mas de elevar o custo de operar no Brasil, dificultar rotas, impor prejuízos e recuperar, pouco a pouco, a capacidade do Estado de exercer controle sobre seu território. A fronteira não é apenas um limite geográfico: tornou-se o espelho mais nítido das escolhas — e das omissões — da política de segurança no país.
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