Poema escrito em 2023 por Pâmela Rani durante viagem a Corumbá dá o tom da obra audiovisual.
(Foto: Divulgação)
Com oito minutos de duração, a obra audiovisual “Olha! Lá vem o trem chegando”, da artista natural de Campo Grande, Pâmella Rani, convida o público a refletir sobre os deslocamentos, as paisagens e as histórias que tecem a identidade sul-mato-grossense a partir da antiga e desativada malha ferroviária do Estado.
A inspiração para o projeto nasceu em uma viagem de Pâmella a Corumbá no ano de 2023, quando ela escreveu o poema que dá título ao vídeo-dança. Pâmella conta que “o texto surgiu num passeio de barco pelo Rio Paraguai, e carrega imagens de deslocamento, de travessia, dos fluxos que atravessam corpos e territórios. Fala do movimento das pessoas, da busca por condições melhores, de memórias familiares e afetivas”, explica a artista, que também é pesquisadora em Ciências Sociais e Antropologia, com foco nas fronteiras entre Brasil e Paraguai.
Para produção, a equipe percorreu o trecho entre Campo Grande e Corumbá da malha ferroviária desativada, registrando estações abandonadas, rios e paisagens atravessadas por histórias de deslocamento. Para Pâmella, esses elementos simbolizam “o tempo, o fluxo, a memória e o corpo em movimento”. A dança traduz isso em gestos inspirados em versos como “navego, navego, navego” e “tempo incendiário”.
Equipe percorreu o trilho de Campo Grande à Corumbá para produzir a obra "Olha! Lá vem o trem chegando". Foto: Divulgação A poesia de Rani, que também assina e interpreta a obra com seu corpo, voz e dança, conduz o espectador em uma viagem sensorial. A trilha sonora e os elementos visuais foram criados por Julián Vargas, músico e artista plástico parceiro na concepção da obra. “A partir de estudos de dança corporal, dança com bambolê, declamação poética, ilustrações e sons de percussão, pássaros, águas e trens, o vídeo se constrói como um mergulho experimental e sensível na memória dos caminhos”, pontua Rani.
Para Julián Vargas, “a poesia foi o ponto de partida. Eu sugeri transformar em vídeo-dança, e aos poucos fomos costurando os elementos — a trilha, a imagem, o movimento. O som foi pensado como guia da dança e da memória, com percussões orgânicas e paisagens sonoras que evocam o trem, os pássaros e a água. A linha sonora se conecta à linha do trem e à fluidez do rio”.
As referências musicais incluem Naná Vasconcelos e o grupo Metá Metá, com sonoridades criadas a partir de instrumentos acústicos e midi. Visualmente, a obra dialoga com o trabalho performático de Joan Jonas e a linguagem audiovisual de William Kentridge. A paisagem não é pano de fundo, mas personagem: “Foi nas antigas estações que o vídeo ganhou corpo. A paisagem molda o tempo da obra”, completa Julián.
A obra foi lançada em evento realizado na Capital do Estado, Campo Grande, na última quinta-feira, 17 de julho, quando o público pôde assistir ao vídeo-dança pela primeira vez. A obra permanece acessível gratuitamente no canal do Youtube @pamellarani, com audiodescrição, legendas e tradução em Libras.
Ficha técnica
O vídeo-dança contou com direção geral e texto Pâmella Rani; câmera, montagem, edição, trilha sonora e ilustração, Julián Vargas; preparação corporal André Tristão; produção-executiva Nilcieni Maciel; figurino Marcia Paulino, acessibilidade – Libras Tatiana Tássia Cavana e audiodescrição Beatriz Lunardi.
Apoio
“Olha! Lá vem o trem chegando é um projeto realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG), do MinC - Ministério da Cultura, Governo Federal, com apoio da FCMS - Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, Setesc - Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura - e Governo de Mato Grosso do Sul.
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