Hidrovia Paraguai.
(Foto: Gerada por IA)
O problema não começou quando o rio baixou. Começou quando o plano foi ignorado
O Rio Paraguai já deu o sinal.
Em 19 de outubro de 2024, a régua de Ladário marcou -71 centímetros, o nível mais baixo desde o início do monitoramento, em 1900. O recorde anterior, de -61 centímetros, datava de 1964. Em Corumbá, quem vive do rio percebeu antes dos relatórios: pescadores, piloteiros e operadores de turismo viram o rio recuar além do que qualquer memória local registrava.
Isso não é um movimento trivial do rio. É um aviso.
Existe um plano federal que deveria orientar o uso da água no Pantanal. Construído ao longo de quatro anos, com ampla base técnica, participação de pesquisadores de diferentes áreas e consultas públicas em toda a bacia, o documento foi aprovado em 2018 pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Previa 17 programas e 70 ações para proteger o Rio Paraguai e evitar que decisões fragmentadas comprometessem o bioma.
Desde então, o plano não saiu do papel.
O grupo criado para acompanhar a execução foi extinto em 2019. O próprio CNRH ficou inativo entre 2023 e 2024. Um novo grupo foi recriado em 2025, mas o que houve até agora foi retomada da discussão, não da implementação.
O plano existe. Sua execução, até aqui, não.
Enquanto isso, outra agenda avançou sem hesitação.
Em 2024, foram aprovados R$ 3,7 bilhões para a construção de embarcações destinadas ao transporte hidroviário de minério pelo Rio Paraguai, por meio do Fundo da Marinha Mercante, com apoio do BNDES. O valor equivale a 45 vezes o custo estimado para implementar o plano hídrico da bacia inteira.
O governo mantém a previsão de leiloar, em 2026, a concessão do trecho sul da hidrovia, entre Corumbá e a fronteira com o Paraguai. O contrato terá prazo inicial de 20 anos, com possibilidade de prorrogação até o limite de 70 anos.
O contraste é direto.
Para usar o rio, há decisão, prazo e dinheiro.
Para cuidar do rio, não.
Quando o Rio Paraguai atinge níveis críticos, o impacto não fica na paisagem. Atinge a pesca, o turismo, o transporte e a renda de quem vive do rio. Sem gestão integrada, cada intervenção nas cabeceiras e no leito deixa de ser pontual e passa a alterar o funcionamento do sistema como um todo.
O debate não é sobre impedir o desenvolvimento. A navegação e a exportação têm função econômica real para a região. O problema é que esse avanço ocorre sem a implementação do principal instrumento que deveria orientá-lo.
Um contrato de até 70 anos sobre um rio sem plano ativo não é planejamento.
É uma aposta feita com o futuro de quem vive na beira do rio.
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