Domingo, 05 de Abril de 2026
Entrelinhas Anne

O papel que embrulha corpos

16 fev 2026 - 10h34   atualizado em 03/03/2026 às 09h59

Anne Andrea Fonseca de Andrade

O papel que embrulha corpos pilha-papel

 

O Brasil consolidou uma obsessão perigosa: a crença de que o papel substitui a proteção. Planos decenais, decretos pomposos e protocolos de intenção são anunciados como soluções definitivas. Na prática, funcionam como registro formal da omissão.

Diante de cada tragédia anunciada, o ritual se repete. Abrem-se sindicâncias, instalam-se comissões, produzem-se relatórios extensos. O Estado escreve. A violência continua.

Feminicídios e filicídios não são raios em céu azul. São o desfecho de processos longos de negligência institucional. Alertas se acumulam em delegacias, conselhos tutelares e prontuários médicos. Nada se integra. Nada se antecipa. Persiste a explicação confortável de que tudo não passou de “tragédia passional” ou “surto individual”. É uma semântica conveniente, pois, se o crime é tratado como exceção psicológica, o poder público fica isento de responsabilidade.

Mas não há paixão no controle. Há poder. O agressor que transforma a família em propriedade e os filhos em instrumento de vingança não age movido por emoção súbita, mas por uma lógica de domínio que costuma deixar rastros. O problema é que esses rastros raramente se conectam.

O paradoxo é evidente. O mesmo Estado capaz de rastrear transações financeiras em segundos alega limitações para cruzar informações sobre acesso a armas, histórico de ameaças e sinais de desestruturação grave. A tecnologia avança para arrecadar. A prevenção permanece lenta quando o assunto é salvar.

A fragmentação institucional tornou-se um álibi permanente. A Saúde diagnostica. A Polícia registra. A Justiça processa. Cada setor cumpre sua parte isoladamente. Entre esses compartimentos, vidas se perdem.

Enquanto isso, investe-se energia considerável na administração de narrativas públicas. Multiplicam-se campanhas, slogans e apresentações otimistas. Governar passa a ser, muitas vezes, o exercício de organizar percepções. O funcionamento real fica em segundo plano.

Em períodos festivos, o contraste se torna ainda mais visível. O Estado demonstra eficiência para organizar eventos, controlar multidões e proteger o espetáculo. Mas falha em enxergar o risco silencioso dentro de casa. Funciona para a cena pública. Hesita na proteção privada.

A omissão não é um acidente administrativo. É uma escolha reiterada. Cada alerta ignorado é uma decisão de adiar o enfrentamento. Cada dado que não conversa com outro sistema é uma opção por manter a fragmentação.

Enquanto a burocracia for tratada como virtude em si mesma, continuaremos reagindo depois do desastre. O país segue acumulando relatórios sobre mortes que poderiam ter sido evitadas.

Papéis não salvam vidas. No máximo, atestam, com o carimbo do atraso, aquilo que o Estado se recusou a impedir.

Receba a coluna Entrelinhas no seu Whatsapp. Clique aqui para seguir o Canal do Capital do Pantanal. 

Leia Também

Nova face da violência escolar
Entrelinhas

Nova face da violência escolar

BR-262: A rota que não fecha
Entrelinhas

BR-262: A rota que não fecha

O problema nunca foram as unhas
Entrelinhas

O problema nunca foram as unhas

O sistema falhou antes do crime. Por quê?
Entrelinhas

O sistema falhou antes do crime. Por quê?

A medida existe. A proteção ainda está em construção.
Entrelinhas

A medida existe. A proteção ainda está em construção.

A riqueza que não se transforma em futuro
Entrelinhas Anne

A riqueza que não se transforma em futuro

Entre o potencial e a execução
Entrelinhas Anne

Entre o potencial e a execução

A engrenagem da impunidade
Entrelinhas Anne

A engrenagem da impunidade

Quando a emergência vira método
Entrelinhas Anne

Quando a emergência vira método

O golpe que expõe a Justiça
Entrelinhas Anne

O golpe que expõe a Justiça

Mais Lidas

Venda de ovos artesanais cresce e impulsiona renda na Páscoa
Economia

Venda de ovos artesanais cresce e impulsiona renda na Páscoa

Irregularidades causarão exclusão de famílias, diz Prefeitura sobre sorteio
Habitação

Irregularidades causarão exclusão de famílias, diz Prefeitura sobre sorteio

Morre empresário Souleiman Khaled; Velório acontece na Capela Cristo Rei
Luto

Morre empresário Souleiman Khaled; Velório acontece na Capela Cristo Rei

Mudanças partidárias em MS alteram bancadas estaduais e federais
POLÍTICA

Mudanças partidárias em MS alteram bancadas estaduais e federais