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O medo ser órfão político

02 jul 2019 - 21h16   atualizado em 03/03/2026 às 09h16

Articulistas convidados

O medo ser órfão político

A natureza humana deixou toda a infância dependente de seus cuidadores. Todos sabem e imaginam as consequências à saúde do bebê sem a mãe, sem o carinho, sem o amor. É assim, o ser humano é carente de cuidados nos anos iniciais e base para sobrevivência. E não são somente os cuidados da saúde física, mas principalmente, a psicológica que influi de sobremaneira os passos futuros da pessoa, com influências na personalidade e na vida inteira.

Há, nos tempos atuais, e é possível que sempre tenha havido, uma forma de tensão emocional que se refere à questão política, diante dos últimos acontecimentos que se infere, de uma bipolaridade político-ideológico no campo de uma análise crítica sobre os governantes e governados, e num sentido compreensivo do poder, do voto, e do povo, sua dimensão e alcance.

No senso comum, é costume dizer que o ser humano “precisa de um sentido” para viver, e isso envolvem os mais profundos pensamentos sobre esse sentido que não é o tema deste ensaio. O que quero dizer é que, politicamente falando, a ideologia no campo político traz um aconchego às íntimas razões e sentido de viver e, para alguns, acaba por ser “o próprio sentido da vida”. Ou seja, acreditar numa ideia pode ser para tão importante quanto comer e dormir. É uma necessidade emocional por vezes incontrolável e mesmo irracional, às escuras de qualquer compreensão ou evidência racional em contrário.

Como uma criança indefesa que necessita dos cuidadores para sobreviver, há no ser adulto um tipo de dependência por suas ideologias que não consegue ter uma visão do contexto, ficando escravo ao texto, a racionalidade diminuta, na esperança sempre de não se decepcionar com aquilo que acredita veementemente. O medo é de torna-se um órfão político, um errante e frustrado no assento das decepções políticas-ideológicas e paixões perdidas.

Com as redes sociais houve uma facilitação para contribuir naquilo que pensamos, evitando-se o contrapondo, à oposição de ideias, o contrário daquilo já arraigados na mente que serve como os primeiros alimentos da infância, e acreditando-se insubstituível e absoluto. Basta escolher e permanecer em grupos de redes sociais alinhados as ideologias, onde a pessoa se retroalimenta e se encanta em tudo sobre esta ideia, combate-se o contrário de forma coletiva de forma veemente com afago diário do ego, das vontades subjacentes à ideologia, da “comida e bebida” diária de emoções já presentes. Isso, mesmo que com notícias falsas nas chamadas fake news.

Isso tudo, faz parte dos primitivos instintos de sobrevivência, e para muitos, é melhor permanecer na “Caverna de Platão”, sem conhecer a verdade, ou na “Matriz” sendo manipulada a mente com a ilusão do mundo real.

Acreditar nas próprias intuições - mesmo que irreais - pode ser a solução para o não-sofrimento político, ou maneira para disfarçar este sofrimento, causando outros efeitos a condição do bem-estar, por vezes, bem maléficos e incompreendidos, seja no humor, na família ou nas habilidades sociais.

O medo se tornar órfão político-ideológico é natural e mais evidente com as condutas nas redes sociais, onde tudo ficar gravado e exposto. Tende-se a fortalecer o vínculo das ideais com pessoas virtuais e alimenta-se de um discurso afeito as aspirações inerentes.

A decepção é evitada, a compreensão do contexto prejudicada e a fragilidade a manipulação fica mais sutil. O medo de ser um órfão político é mais forte que a razão, e agora na era da internet, percebemos bem mais visível com as manifestações em massa, com clareza solar diante de uma análise mais apropriada do fenômeno. Este medo causa confusão no mundo da informação, gerando por paradoxo: um enrijecimento das ideias e atraso no ideário democrático.

 

Valmir Moura Fé

Delegado de Polícia

e-mail: [email protected].

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