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Democracia fraudada

22 mar 2017 - 14h00   atualizado em 03/03/2026 às 09h16

Articulistas convidados

Democracia fraudada

O fato é que após o processo de redemocratização da década de 1980, todos nós fomos levados a acreditar num País melhor. Na época, políticos aproveitaram a onda popular e somatizaram tudo que fosse de interesse particular, e havia um alvo direto para arcar com todas as culpas: os militares. O tempo passou, e poucos ousam em discorrer de forma isenta o que realmente aconteceu; agora sob o olhar crítico das intempéries da corrupção generalizada passados 30 anos de democracia. Dirá o simplório que o desvio de conduta sempre existiu em todos os governos. Sim, mas não podemos resumir toda a escalada de baixa moral política dos tempos atuais com confrontos pífios de ideias e valores puramente ideológicos.

Na verdade, a situação ultrapassou todos os limites do ideal político-democrático, e a nação exige recriar todo o processo de participação popular no destino, ações e políticas públicas do País. Os “representantes do povo”, na sua imensa maioria, engendraram interesses escusos bem distantes do bem comum, para particularizar o interesse público, transformando tais interesses em extensão de práticas empresarias de nítida inclinação ao capital e lucro desmedido na esteira de condutas criminosas.

A decantada e enaltecida democracia irá sobreviver no nosso tempo, mas se verifica com clareza a manipulação desse processo de participação popular naquilo chamado de “falácia da concretude deslocada”, onde somos enganados a todo tempo por abstração de uma realidade inexistente. A realidade concreta fica ofuscada e crivada pela manipulação cognitiva de interesses aquém da massa popular.

No tempo da relativização moral, da felicidade a qualquer custo, do prazer imediato, da cultura da futilidade, e da sociedade pós-moralista, eis que haverá, portanto, um crescimento sob os arrimos desta contradição de ideias perigosas a tudo isso, e notadamente, um novo discurso da intolerância. Com as liberdades públicas notoriamente conquistadas no processo democrático, veio também consigo excessos de condutas imorais e criminosas. Será que o ser humano a todo tempo tem que ter um “Leviatã” forte o bastante para regrar nossas ações? O excesso de democracia e liberdades teriam criado um outro monstro?

Neste contexto, discute-se no Congresso Nacional uma Reforma Política diante do clamor popular e falhas no sistema eleitoral de escolha dos representantes do povo. Ocorre que este mesmo Congresso Nacional tem centenas de congressistas

investigados por prática de crimes de Corrupção, Lavagem de Dinheiro, Organização Criminosa, etc, o que retira a legitimidade para implantar reformas neste momento. Aliás, já se fala que tal reforma política seria mais uma ação perpetrada para proteger tais envolvidos em crimes.

Doações eleitorais milionárias para campanhas políticas elegeram muitos deputados e senadores. Tais doações há muito tempo são alvos de suspeita popular, já que tais doações em muitos casos eram moeda de troca da corrupção e envolvimento em atividades não republicanas no âmbito da administração pública.

Somente maior pressão popular e o povo nas ruas mudarão este panorama. E não se iludamos com novas táticas de manipulação e enganação da politicagem que logo se aproveitam do anseio popular e repetem frases e palavras de efeito para ludibriar o povo. A moda agora é falar em transparência na administração pública, combate a corrupção, ética, controle de gastos, responsabilidade social, dentre outros.


Valmir Moura Fé, Delegado de Polícia

E-mail: [email protected]

 

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