Uma criança que chora insistentemente é tratado como ‘normal’ por quem ouve e se abstém de fazer alguma coisa, seja no sentido de entender e ajudar ou até de denunciar possíveis maus-tratos, mas a cena de um cachorro sendo maltratado acaba comovendo e criando uma força-tarefa para que o autor deste crime seja punido.
Se a mesma indignação com o maltrato ao cachorro tivesse sido aplicada no caso da menina de 2 anos que acabou morta na noite dessa quinta-feira (26), em Campo Grande, a criança talvez pudesse estar viva se recuperando do abalo emocional e das feridas deixadas no corpo pequeno e sem condições de defesa pelas agressões com socos e tapas dados pelo padrasto de 25 anos preso e pela própria mãe, quem deveria defender com a vida a filha, que não podia se defender.
Choros constantes eram ouvidos da casa onde a pequena de 2 anos vivia com a mãe, padrasto e irmão. Uma vizinha que não quis se identificar contou ao Jornal Midiamax que na semana anterior encontrou com a menina e sua mãe em um supermercado e tudo aparentava estar bem.
Ela, inclusive, não sabia que a menina havia morrido e contou que ouvia o choro da criança que vinha da residência. A mulher disse que ela denunciou em maio de 2022 a mãe da menina por maus-tratos a um cachorro que a mulher deixou morrer.
Na época, a mulher chegou a ser detida e levada para a Decat (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Ambientais e de Atendimento ao Turista). Depois desse episódio, a mulher se mudou para outra cidade e tempo depois retornou para a Capital.
Outro vizinho que conversou com a reportagem contou que sempre ouvia o choro da criança, mas disse “criança chora mesmo”. E nisto nada foi feito e a menina morreu. A mulher passou a morar com a mãe, avó da criança, após ser despejada, segundo os vizinhos.
O casal acabou preso pelos crimes de homicídio qualificado por motivo fútil e estupro de vulnerável.
Mãe confessou que agredia filha
Segundo o delegado Pedro Henrique que atendeu o caso, o homem ficou em silêncio durante o depoimento e a mãe da menina confirmou que batia na filha, mas com "menos intensidade" que o marido. A mãe justificou que as agressões tinham o objetivo de 'corrigir' a menina. A mulher relatou que tinha medo do marido.
Ainda segundo o delegado, a criança apanhava por motivos banais. Em relação à última agressão anterior à morte da menina, o casal disse à polícia que demorou para levar a menina para a unidade de saúde em razão dos hematomas que a criança tinha no corpo e o temor dos ferimentos levantarem suspeita das agressões.
Mãe estava com a filha há 4 horas morta em casa
Segundo o relato das médicas, quando a criança chegou à unidade de saúde, ela já estava morta há pelo menos quatro horas com sinais de rigidez, com hematomas por todo o corpo e sangramento pela boca. Ainda segundo as médicas, a mãe estava estranhamente tranquila e só ficou nervosa quando foi informada que a polícia seria acionada para o local.
Em exames feitos pelas médicas na unidade de saúde, elas constataram sinais de estupro na criança. Com a chegada dos policiais, a mãe da menina negou que tivesse levado a filha até a UPA já morta, mas disse que ela e o atual marido aplicavam 'corretivo’ na criança.
A mulher contou que a filha ficava com o padrasto enquanto ela trabalhava durante o dia, e que o marido batia na criança com socos e tapas para corrigir a menina. O padrasto da menina foi encontrado em casa pelos policiais e negou que tenha agredido a enteada naquele dia, dizendo que bateu na criança há três dias.
30 atendimentos médicos na ficha da criança
A criança já tinha em seu histórico médico o registro de 30 atendimentos feitos e, em um deles, a menina havia fraturado a tíbia.
O pai da criança relatou que já tinha registrado dois boletins de ocorrência contra a mãe da menina por maus-tratos. Os registros dos boletins de ocorrência foram no dia 31 de dezembro de 2021 e 22 de novembro de 2022, na Depca (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente).
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