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COLUNA

Entrelinhas

Anne Andrea Fonseca de Andrade

A engrenagem da impunidade

Quando o furto vira rotina, o Estado falha em proteger o cotidiano.

03 fevereiro 2026 - 12h30

O que define a deterioração de uma sociedade não são apenas grandes crises ou eventos extremos, mas a erosão silenciosa do cotidiano. Quando o furto deixa de ser exceção e passa a integrar a normalidade urbana, o problema já não é apenas de segurança pública. É um sinal de falha estrutural na capacidade do Estado de sustentar o pacto social.

Onde a lei recua, o crime ocupa espaço. O furto recorrente não é um desvio ocasional, mas um indicador de que o controle do território se enfraqueceu. Quando os mesmos delitos se repetem nos mesmos locais, sem alteração do padrão de resposta, a mensagem transmitida ao cidadão é inequívoca: a proteção à propriedade tornou-se incerta.

Nenhuma mercadoria furtada desaparece. Ela circula. Alimenta redes de receptação e mercados informais que dão destino imediato ao que foi subtraído. Onde esse elo não é enfrentado de forma sistemática, o furto deixa de ser risco e passa a ser prática viável. O crime se organiza a partir da previsibilidade da resposta estatal.

Nesse contexto, o consumo problemático de drogas aparece como fator funcional dessa engrenagem. Não por juízo moral, mas por lógica prática. Parte dos furtos atende à necessidade constante de dinheiro rápido, fechando um ciclo que combina degradação social e insegurança cotidiana.

O efeito mais visível dessa falha é o comportamento da população. O cidadão deixa de registrar ocorrências não por desconhecimento da lei, mas por experiência acumulada. O bem não retorna, o autor reaparece, o processo se arrasta. A segurança pública perde, assim, sua principal fonte de informação e sua base de confiança.

Não se trata de afirmar que nada é feito. Ações existem, prisões ocorrem, operações são anunciadas. O problema é a repetição do resultado. Quando o crime se torna hábito, a política pública já não cumpre sua função essencial.

Tratar o furto como evento isolado e a receptação como detalhe secundário sustenta um sistema que opera mais para administrar a impunidade do que para interrompê-la. Prende-se, solta-se, arquiva-se. O ciclo se fecha sem ruptura.

O diagnóstico é conhecido. O que falta não é técnica, mas decisão. Decidir se o cotidiano será protegido por políticas capazes de romper padrões ou se continuará submetido a uma engrenagem que favorece a repetição do crime e o desgaste silencioso da vida urbana.

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