Peixes do Pantanal.
(Foto: Divulgação/PMA)
Um estudo científico recente, publicado na revista Ecological Modelling, traz uma nova perspectiva sobre a biodiversidade aquática na Bacia do Alto Paraguai (BAP). Ao contrário da crença popular, a maior riqueza de peixes não se concentra na planície pantaneira, mas sim nas cabeceiras dos rios de planalto, como os rios Cuiabá, Apa, Miranda e Taquari.
Utilizando inteligência artificial (algoritmo MaxEnt) e uma base de quase 28 mil registros, os pesquisadores identificaram que a altitude é o principal filtro para a vida aquática. A sub-bacia do Rio Apa, por exemplo, apresentou a maior riqueza potencial, com estimativa de até 229 espécies.
O Perigo das Hidrelétricas e da Fragmentação
O Dr. Yzel Rondon Suárez, professor da UEMS e um dos autores do trabalho, faz um alerta crítico: as áreas de maior biodiversidade coincidem com locais visados para projetos de infraestrutura. Atualmente, existem cerca de 130 represas (em operação ou planejamento) na bacia.
"Uma barragem pode parecer pequena, mas a soma de várias fragmenta o habitat e bloqueia rotas migratórias", explica Suárez. Ele destaca que soluções comuns, como as "escadas de peixes", são amplamente criticadas pela ciência por não evitarem o impacto sistêmico na piracema, o que prejudica pescadores, indígenas e o turismo de pesca em toda a região.
Ameaças: Hidrovia e Desmatamento
Além das barragens, o estudo aponta outros dois grandes vilões:
- Hidrovia: Projetos de dragagem e alargamento do leito para grandes comboios podem fazer a água escoar mais rápido, deixando os peixes com menos volume de água para subir os rios e se reproduzir.
- Agropecuária: O desmatamento de matas ciliares nas bordas do Pantanal causa erosão e assoreamento. O pesquisador cita que até em Bonito, na Serra da Bodoquena, águas historicamente cristalinas já ficam turvas após chuvas intensas devido a esse manejo.
A Base da Vida: Os "Peixes Invisíveis"
A pesquisa também ressalta a importância vital de espécies pequenas, como lambaris e cascudos, comuns nos riachos de cabeceira. Embora ignorados pela pesca comercial, eles sustentam a cadeia alimentar dos peixes maiores e garantem o equilíbrio de todo o ecossistema pantaneiro.
A conclusão dos cientistas é clara: para salvar o Pantanal, é preciso proteger suas cabeceiras. O estudo defende que esses dados sirvam de base para políticas públicas urgentes de gestão de solo e recursos hídricos.
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