O Projeto NAVIO (Navegação Ampliada para Vigilância Intensiva e Otimizada) tem causado um grande impacto nas comunidades ribeirinhas do Tramo Norte do Rio Paraguai levando assistência, vigilância laboratorial e educação em saúde. Nessas localidades, o acesso a serviços básicos é historicamente limitado. O projeto completou sua segunda edição em abril desse ano e a próxima está planejada para iniciar em 1º de dezembro.
O estudo, coordenado pela Fiocruz Minas e conduzido pelo pesquisador Dr. Luiz Alcântara, integra iniciativas internacionais de pesquisa sobre mudanças climáticas e doenças, entre elas, o Consórcio Internacional CLIMADE (Climate Amplified Diseases and Epidemics) e conta com financiamento de instituições como o NIH (Instituto Nacional de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos), a OPAS/OMS (Organização Pan-Americana da Saúde, atuando em conjunto com a Organização Mundial da Saúde) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
A chegada do projeto a Mato Grosso do Sul ocorreu a partir de articulações técnicas envolvendo Alcântara junto à SES, com posterior adesão da SES de Mato Grosso e instituições de pesquisa nacionais e internacionais. Com essa coordenação, o Governo do Estado consolidou a parceria com a Marinha e apoiou a formalização do termo de cooperação entre os estados, garantindo as condições necessárias para as etapas de campo e laboratório.
Embora os insumos laboratoriais sejam fornecidos pelo Ministério da Saúde, o Lacen (Laboratório Central) assegura a execução contínua das análises; e, enquanto a Marinha atua no atendimento às populações ribeirinhas, cabe à SES garantir o cuidado integral no território, incluindo medicamentos, vacinas e suporte assistencial, estruturando o fluxo operacional que sustenta o avanço do estudo em Mato Grosso do Sul.
Cabe à Coordenadoria de Saúde Única integrar as áreas da SES responsáveis pela execução das ações em campo: Odontologia, Lacen, Imunização, Telessaúde e Assistência Farmacêutica. Essa integração garante que cada frente atue de forma articulada, permitindo que os atendimentos, coletas, análises, orientações e procedimentos ofertados durante as expedições ocorram com fluidez, qualidade técnica e suporte contínuo às equipes e à população atendida.
Durante a segunda expedição, realizada entre 23 de março e 14 de abril de 2025, mais de 460 moradores foram atendidos em comunidades como Barra de São Lourenço, Fazenda Amolar, Porto São Pedro, Paraguai Mirim, Domingos Ramos e áreas urbanas de Corumbá. Os atendimentos incluíram consultas médicas e odontológicas, vacinação, coleta de exames, testagem rápida e investigação laboratorial de doenças infecciosas.
O pesquisador da Fiocruz Minas e coordenador do Consórcio Internacional CLIMADE, Luiz Alcântara, reforça o caráter inovador da iniciativa: “O Projeto NAVIO representa um modelo de vigilância que o mundo precisa conhecer. Aqui no Pantanal, conseguimos agregar saúde em um dos biomas mais sensíveis às mudanças climáticas. Cada amostra coletada e cada diálogo com a comunidade fortalece nossa capacidade de prever e responder a doenças emergentes. Essa parceria com a SES e a Marinha do Brasil mostra que ciência, tecnologia e políticas públicas podem navegar juntas para proteger vidas e ecossistemas inteiros”.
Atenção à saúde e diagnóstico para populações isoladas
A expedição realizou acolhimento com classificação de risco, consultas clínicas e dermatológicas, acompanhamento de doenças crônicas, prescrição medicamentosa, entrega de resultados e encaminhamentos. A ampliação do acesso a exames laboratoriais, como hemograma, glicemia, função renal e perfil lipídico, foi possível por meio da plataforma de telediagnóstico, permitindo análises rápidas e precisas mesmo em áreas remotas.
Foram identificados casos de sífilis, doenças dermatológicas recorrentes, infecções respiratórias e alterações metabólicas que exigem acompanhamento contínuo. Testes moleculares também permitiram a detecção de vírus respiratórios como VSR, rinovírus e influenza.
Além da vigilância em humanos, o projeto integrou vigilância ambiental e animal, com coleta de água para análise de contaminantes, monitoramento de vetores e avaliação sanitária de animais domésticos e silvestres.
A secretária adjunta de Estado de Saúde, Crhistinne Maymone, destaca: “Levar saúde ao Pantanal é compreender a força e a sensibilidade desse território. O Projeto NAVIO mostra que ciência, cuidado e integração ambiental caminham juntas. A cada expedição reafirmamos o compromisso do SUS com quem vive em áreas remotas e depende diretamente da natureza para sobreviver”, afirma Maymone.
Projeto atende localidades onde historicamente o acesso a serviços básicos é limitado. Foto: Arquivo SES-MSTecnologia e inovação a serviço da saúde
Um dos avanços desta expedição foi a integração de modelos de inteligência artificial para interpretação de dados clínicos, com análises em tempo real que apoiam o cuidado e a vigilância. A utilização da plataforma REDCap garantiu registro imediato e seguro dos dados, ampliando a precisão das análises epidemiológicas.
Educação em saúde e fortalecimento comunitário
A SES promoveu ações educativas voltadas à prevenção de doenças, uso correto da água, controle de vetores, convivência segura com a fauna local e impactos das mudanças climáticas na saúde. Foram reforçadas práticas como o uso de filtros de barro distribuídos pelo projeto, o manejo adequado de reservatórios e orientações gerais de saúde ambiental.
A pescadora Maria Cristina Pereira, moradora do Porto Morrinho, destacou a importância da ação: “Essa ação é muito importante para nós, ribeirinhos. Aqui não temos médico, não temos acesso fácil ao cuidado. Quando vocês chegam é um alívio. Fui muito bem atendida, fiz exames, recebi explicações sobre saúde e meio ambiente. Isso faz muita diferença para nossa comunidade”, relata Maria.
A dona de casa Deucilines Martins, moradora de Forte Coimbra, reforça: “Aqui não temos atendimento no dia a dia. Quando o projeto chega, conseguimos passar no médico, dentista, oftalmo, fazer exames e vacinas. Sempre que vocês vêm, levantam o nosso astral. A gente deixa de se sentir abandonado”, conta Deucilines.
Principais ações realizadas
• Assistência à saúde
– Consultas médicas e de enfermagem – Classificação de risco – Diagnóstico de doenças crônicas e dermatológicas – Testes rápidos (sífilis, HIV, malária, leishmaniose, arboviroses) – Exames laboratoriais completos – Diagnósticos sorológicos e moleculares – Atendimento odontológico e vacinação
• Vigilância laboratorial avançada
– Coleta e processamento de amostras humanas – Análise para dengue, zika, chikungunya, febre amarela, HTLV, toxoplasmose – Detecção de vírus respiratórios (Influenza A, rinovírus, VSR e MPV)
Educação em saúde
– Rodas de conversa sobre prevenção de doenças – Qualidade da água e controle de vetores – Impactos das mudanças climáticas – Convivência segura com a fauna local
Distribuição de filtros de água
Devido à presença de contaminantes identificada em expedições anteriores, a SES reforçou as ações de promoção da saúde com a distribuição de filtros de barro às famílias ribeirinhas, garantindo maior segurança no consumo de água.
Equidade territorial e cuidado contínuo
O Projeto NAVIO integra a estratégia de regionalização da saúde do Governo do Estado, garantindo atendimento a territórios isolados e fortalecendo o vínculo com populações historicamente desassistidas. A iniciativa amplia a capacidade do estado de responder às doenças infecciosas e às condições crônicas em regiões de difícil acesso.
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A próxima edição do Projeto NAVIO está confirmada para iniciar no dia 1º de dezembro. (Foto: Arquivo SES)

