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Polícia

Piloto violou horário e usou luz de trator para decolar avião que matou arquiteto chinês no Pantanal

29 janeiro 2026 - 12h25Mídiamax

Assim como um “fechar de cortinas”, quem é pantaneiro de verdade sabe que o escurecer ocorre entre as 18h e as 18h30, em uma rapidez impressionante. A frase é literal: “Não se vê mais nada”. É quando se inicia a sinfonia da vida noturna no Pantanal e muitos utilizam a “focagem” — que é o uso de luzes — para encontrar animais. E foi justamente em mais um dia comum como esse que uma tragédia ocorreu, causando as mortes do renomado arquiteto chinês Kongjian Yu, dos cineastas Rubens Crispim e Luiz Fernando e do piloto Marcelo Pereira.

O acidente aéreo, ocorrido em solo sul-mato-grossense no dia 23 de setembro de 2025, na Fazenda Barra Mansa, em Aquidauana, chocou o mundo. Na época, foi feito o registro como “colisão com obstáculo durante a decolagem e pouso”, mas, no decorrer dos dias, a investigação especializada da Polícia Civil apontou questões de performance. A causa também já foi definida: violação de horário, com a falta de luminosidade e de plano de voo, entre outros crimes correlatos.

Conforme a delegada Ana Cláudia Medina, titular do Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado) e com competência para investigação de crimes aeronáuticos no Estado, a questão de violação de horário ainda é tratada como “seríssima” na região e, justamente por este fato, o inquérito busca uma pronta resposta.

‘Foi feito tudo certinho, antes do voo fatal’, aponta investigação

“Aliado a isto, apuramos a questão da luminosidade. Então, foram várias diligências envolvidas, e aí fizemos a experiência no motor, a perícia, até para o descarte. Nossa atuação é assim: a gente trabalha descartando as hipóteses. E não tinha nenhuma pane, então, definimos a causa e estamos na fase dos crimes correlatos. Infelizmente, [decolar naquele horário] foi um pedido do piloto. Iriam para a última fazenda, estavam em cinco e era necessário fazer dois trajetos, isso foi feito tudo certinho, antes do voo fatal. Só que, da última vez, teve a questão da luminosidade”, afirmou ao Jornal Midiamax a delegada Medina.

No trabalho investigativo, a polícia acompanhou o primeiro voo, sem nenhuma intercorrência. No entanto, no último, o piloto decolou faltando cinco minutos para fechar o horário de aeronavegabilidade homologado pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), que, até por questões culturais, muitos não respeitam.

“Em um voo de 15 minutos e mais 15 da volta, ele teria meia hora. No entanto, naquele horário, estavam faltando cinco minutos para fechar o horário permitido, e ele quis decolar. É isso que estamos trazendo para o inquérito. Na própria fazenda, onde aguardavam o último grupo da equipe para deslocar até Barra Mansa, a pessoa diz que falou: ‘Fica aqui, tem o quarto para ficar, já está escuro’. E, mesmo assim, houve insistência. Chegaram a acender a luz do trator para o piloto decolar“, comentou a delegada.

Neste momento, a equipe especializada fala que o comandante — no caso, o piloto — precisaria intervir, porém, fez o contrário. “Seria necessário ele dizer: ‘Olha, não posso voar porque eu já não tenho as condições regulares de voo’. Era a autoridade máxima ali, o responsável pela segurança daquele comando de aeronave. Só que ele não falou isso, ele falou que decolaria. Ele deu o aval lá no Pantanal e seguiu adiante, e agora a gente verifica todas as questões, inclusive a contratação”, argumentou Medina.

Inquérito aponta que monomotor não tinha plano de voo e se chocou com cumbaru

Foto: Reprodução

No decorrer dos dias, a polícia também passou a apurar as questões de contratação e confirmou que não havia plano de voo naquele dia. “E são áreas que necessitam [do plano de voo]. E no Pantanal tem muito disso, mas não é o que derrubou a aeronave. Como já foi dito, foi a questão da violação do horário e a falta da luminosidade, fazendo ele se chocar com o cumbaru, uma árvore típica da região. A arremetida já chegou no meio da pista, irregular, totalmente fora do eixo, e tudo contribuiu. Não tinha bicho, nada, só para constar, e sim as dificuldades com a luminosidade da pista”, pontuou a delegada.

No caso da árvore, ainda de acordo com a apuração policial, tratava-se da maior existente na região, um cumbaru de cerca de 20 metros de altura. “Ficamos lá, entendemos o cenário das árvores caídas. No caso, era a maior árvore lá; no escuro não se enxerga, e ela estava até seca, então, não dava pra ver. Era muito grossa, e a aeronave foi ao chão. São questões que interferiram, causaram o acidente, a violação como um todo e outras causas correlatas”, argumentou Medina.

 O arquiteto chinês Kongjian Yu, mundialmente conhecido, estava no Brasil para gravações de um documentário.Família e amigos de Kongjian Yu fizeram despedida fúnebre na tradição chinesa. Foto: Reprodução X

Nesse sentido, a delegada ressalta que o monomotor Cessna 175 (prefixo PT-BAN, fabricado em 1958) não era homologada para fazer transporte remunerado de passageiros. “Ele não tinha habilitação para transporte remunerado. Fazia pouco tempo que ele [piloto] tinha conseguido liberar, porque, em 2022, o juízo determinou a entrega para manutenção, e isso levou dois anos. Em 2025, voou muito pouco esta aeronave. E da aeronave não ser liberada a gente já sabia, tem muita coisa que se resolvem no tete-a-tete, de maneira ilegal, tanto é que não havia problema com a aeronave. As condições mecânicas dela, a aeronavegabilidade, estava tudo ok, o problema é, culturalmente, o voo em violação”, explicou.

Sendo assim, na fase atual, a titular do inquérito comenta que a contratação do voo está sendo apurada. “Se a aeronave estava sendo usada novamente para táxi aéreo clandestino, precisamos saber. Era um documentário a ser feito, existia uma equipe que estava gravando. Agora vamos apurar. Antes, a gente precisava entender e preservar, e agora vamos ver, então. Não houve descartes, até porque a gente precisava fazer esses descartes, algumas documentações que a gente precisa. Houve certa dificuldade porque a gente tinha um estrangeiro e todas as condições para a extração dos corpos, que foi a nossa prioridade”, afirmou.

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