Saúde

Hospital Militar na Capital realiza a 1ª cirurgia com polilaminina em MS

21 JAN 2026 • POR CG News • 11h32
O paciente é um jovem militar de 19 anos, atingido no pescoço por um disparo acidental, em outubro do ano passado. - Foto: Marcos Maluf/CG News

Depois de ser adiada, teve início às 9h30 desta quarta-feira (21) a primeira cirurgia realizada em Mato Grosso do Sul com uso da polilaminina, medicamento ainda em fase de estudos e considerado promissor na recuperação de movimentos em pacientes com lesão na medula espinhal. O procedimento ocorreu no Hospital Militar de Área de Campo Grande e teve duração de cerca de 40 minutos.

O paciente é um jovem militar de 19 anos, atingido no pescoço por um disparo acidental, em outubro do ano passado. O projétil causou uma grave lesão na medula espinhal antes de atravessar completamente a região cervical, deixando o rapaz tetraplégico, sem sensibilidade ou movimentos do pescoço para baixo.

A cirurgia é comandada pelo neurocirurgião Bruno Cortez, do Rio de Janeiro, que já realizou o procedimento em outros estados. Ele conta com a participação do neurocirurgião Wolnei Zeviani, do Hospital Militar de Campo Grande, que acompanhou o paciente desde o período de internação na Capital. Este é o primeiro procedimento do tipo realizado no Estado.

Segundo Wolnei, o caso difere dos demais já realizados porque a aplicação do medicamento não ocorre dentro da chamada “janela terapêutica” de 72 horas após a lesão, período considerado ideal. Ainda assim, a expectativa é de benefício clínico. “A programação de hoje é fazer a infusão do medicamento diretamente no tecido medular lesionado. Utilizamos uma agulha guiada por fluoroscopia, que nos permite acompanhar a posição em tempo real até alcançar a região central da medula e injetar o remédio na área afetada”, explicou.

Conforme o médico, a cirurgia é considerada de baixa complexidade e não exige materiais sofisticados. “Vamos utilizar basicamente uma agulha de raquianestesia, seringas e o aparelho de fluoroscopia, que já usamos em cirurgias de coluna. A anestesia pode ser geral ou não, dependendo do grau da lesão e das condições do paciente”, detalhou.

Ao comentar a expectativa em torno do procedimento, o neurocirurgião destacou o impacto do tratamento para pacientes, familiares e equipes médicas. “Esse tratamento traz esperança não só para os pacientes, mas também para nós, porque vivemos esse drama junto com eles e com a família. São pessoas ativas que, de repente, passam a ficar acamadas. A internação é muito longa, são pacientes frágeis e com risco de complicações. Ter uma alternativa, um tratamento que possa, mesmo que não de forma imediata, mas ao longo de semanas ou meses, devolver capacidades e proporcionar uma vida mais ativa, para nós é um sonho", afirmou.

O militar foi inicialmente atendido em Dourados, onde passou por cirurgia para estabilização da coluna. Devido à gravidade do quadro, precisou ser transferido para o Hospital Militar de Campo Grande, onde permaneceu internado por cerca de dois meses, incluindo duas semanas na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Durante esse período, enfrentou complicações, como infecção, mas sobreviveu. “Foi uma internação muito difícil”, relembrou Wolnei.

A família tomou conhecimento do medicamento experimental e, com apoio jurídico, ingressou com pedido na Justiça para viabilizar o tratamento. Como a polilaminina ainda não possui aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o procedimento só pôde ser realizado após decisão liminar favorável, autorizando o uso de forma experimental, conhecido como uso compassivo. O medicamento é fornecido pelo laboratório Cristália, em parceria com a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Inicialmente, a cirurgia estava prevista para o dia 14, mas foi adiada para cumprimento de exigências regulatórias. O advogado do caso, Gabriel Traven Nascimento, explicou que foi necessário aguardar o prazo de 72 horas para manifestação da Anvisa no processo. “O reagendamento decorre exclusivamente da necessidade de uma autorização regulatória formal, exigida quando se trata de uso compassivo de medicamento ainda não registrado, e não de qualquer falha médica, logística ou judicial”, afirmou. Segundo ele, a decisão judicial representa um avanço.

De acordo com a UFRJ, caso todas as fases de estudos sejam concluídas com sucesso e aprovadas pela Anvisa, a expectativa é que a polilaminina possa ser disponibilizada no mercado em dois ou três anos.

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