"Representar o Pantanal na COP 30 foi transformador", diz universitária de Corumbá
29 NOV 2025 • POR Gesiane S. Lourenço • 13h23Desde que foi anunciada como uma das Delegadas da Juventude para representar o bioma Pantanal na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), Eloize Cáceres, se tornou figurinha fácil na mídia local de Corumbá. A estudante do curso de Ciências Biológicas do campus Pantanal da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), chegou à poucos dias da capital paraense, com uma bagagem repleta de experiências que faz questão de compartilhar. A cada entrevista, palestra ou seminário que participa para expôr sua vivência, Eloize tem se tornado íntima dos corumbaenses.
A COP 30 aconteceu entre os dias 10 e 21 de novembro, com a participação de 129 países. Os dias de discussões com lideranças políticas, ambientalistas, ativistas, representantes da população indígena e de outros segmentos resultou na aprovação de 29 textos que abordam pontos centrais sobre adaptação, mitigação, financiamento climático e implementação.
Orientados pela SNJ (Secretaria Nacional da Juventude), os 12 Delegados da Juventude participaram de pautas específicas sobre cada um dos cinco biomas do Brasil: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa. Eloize explica que as pautas a respeito do bioma Pantanal abordaram as principais lutas ambientais enfrentadas na região de Corumbá: as queimadas predatórias, o avanço do Agro nas regiões que cercam o Pantanal, a falta de cuidado hídrico no ciclo das águas, entre outros. A estudante diz que não poupou esforços para viver a conferência com intensidade.
"Atuei vivenciando a COP 30 em todas as camadas, sejam elas como ouvinte, como painelista, como participante, como ativista socioambiental, como jovem dentro das negociações, dentro e fora da zona Azul e Verde, nas ruas como na Marcha Global pelo Clima, nos encontros multilaterais com outras juventudes referentes ao processo climático. De todas as formas, vivenciar a Conferência das Partes foi inesquecível".
Eloize avalia que a juventude poderia ter ocupado ainda mais espaço, mesmo assim, considera que o momento foi histórico, visto a unicidade que o evento trouxe para os 30 anos de Conferência, "a linha da juventude nunca esteve tão notada, sendo essa a segunda vez na história da COP que teve uma representante jovem para a juventude do país, que no nosso caso, a escolhida para a missão foi a brasileira carioca, Marcelle Oliveira". No pavilhão das Juventudes, na Blue Zone, os delegados puderam desenvolver debates a respeito dos desafios climáticos enfrentados por cada bioma. Por fim, a SNJ relatou todo esse trabalho através de um documento oficial, que embasa a motivação da participação jovem nesses movimentos, desde a pré-COP 30 em Brasília, até o ápice em Belém. O documento aponta a perspectiva de cada bioma brasileiro em discussões sobre Justiça Climática, Transição Justa, Mapa do Clima, Agenda Global e outros.
Entre todas temáticas abordas, Eloize aponta que a Meta Global de Adaptação (OGA) e a importância do financiamento climático, foram as que mais lhe cativou. "Foi lá que percebi que as métricas de vulnerabilidade que debatemos precisam ser extremamente cuidadosas ao olhar para o Pantanal. Ver temas que eu lia nos livros, como Compromissos de Redução (NDCs) e a Omissão dos Fósseis, serem debatidos na prática me mostrou a urgência para que o financiamento global seja implementado em pautas que não são somente ambientais, mas intrinsecamente climáticas e sociais", pontua.
Sobre a popularidade que tem alcançado devido sua participação na COP30, Eloize diz que já esperava receber o reconhecimento de pessoas e instituições que atuam no setor ambiental do Pantanal, porém, o carinho da imprensa local, que tem repercutido sua história, foi uma grande surpresa.
"De todo modo, vejo essa visibilidade como uma oportunidade crucial para dar mais acesso à pauta do Pantanal. Inspirar a juventude nessa causa é, para mim, um presente, pois se eu cativo ao menos um coração que acredita no poder da educação, da ciência e da pesquisa — que são meus pontos focais — eu já ganhei o mundo!"
Muito além de se tornar pauta nos principais veículos de comunicação da cidade, a jovem também tem sido abordada por pessoas na rua e recebido reconhecimento na universidade, na família e nas escolas onde estudou.
"Através dos canais de comunicação tenho ganhando o reconhecimento de outros jovens, da população corumbaense, de Mato Grosso do Sul e do Brasil. Tudo isso é bom e mostra que temos pautas a serem repercutidas, e quanto mais acessarmos elas, mais conseguiremos levá-las aos poderes públicos e governamentais para realizar a mudança efetiva nessas questões".
Como estudante do curso de graduação em Ciência Biológicas da UFMS Pantanal e estagiária no laboratório de Microbiologia do Campus Pantanal, Eloize já realizava algumas pontes dentro de tema climático, e agora, no período pós-COP 30, ela acredita que o trabalho continua, porém, com peso ainda maior.
"É necessário que sejamos espelhos para a juventude local e que tenhamos frentes políticas para mudanças socioambientais, que possamos levar cada vez mais jovens em palcos como esses, a fim de promover uma participação efetiva da juventude pantaneira nessa linha". Sem valorização de ego, Eloize se coloca como apenas mais uma cidadã, que realiza voluntariado, tem frente religiosa, ambiental científica e que busca a mudança no mundo.
Os planos futuros envolvem cultivar sementes já plantadas em sua cidade natal. Eloize tem recebido convites para atuar em parceria com movimentos e instituições que desejam realizar ações e implementações em alguns pontos focais. Espaços educacionais, como obra social e escolas, também fazem parte dos ambientes que ela estará presente nos próximos semestres.
Quando perguntada se durante os dias de COP30 deu para "turistar", Eloize brinca dizendo que se quer deu tempo de experimentar o famoso tacacá. A universitária de Corumbá resume sua participação em oportunidade e cita o poeta Manoel de Barros para mostrar o quanto a experiência foi transformadora em sua vida.
"...Cresci brincando no chão entre formigas, meu quintal é maior que o mundo... (Manoel de Barros). Literalmente, minha casa, o Pantanal, é gigantesca, e levá-la para balanços globais como esse é necessário. O conhecimento adquirido em painéis e diálogos climáticos, a realização de pontes entre Estados e o contato com projetos que fazem a diferença em outros territórios compõem a bagagem mais valiosa que eu trouxe no meu passaporte", conclui Eloize, com a clara e visível sensação de missão cumprida.
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