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Tordinhos do entardecer

21 fev 2020 - 10h20   atualizado em 03/03/2026 às 09h16

Articulistas convidados

Tordinhos do entardecer

Chico, o que comeu hoje, arroz?
Éééé
Tá de papo cheio?
Tôôô
Chico ,chico ,chico, chicoooo.....

Dizia o meu pai que essa é a onomatopeia do canto do tordinho ou pássaro preto, como é conhecido em outras regiões do país. Passarinho que anuncia o amanhecer e o cair da tarde, de comportamento gregário, vive aos bandos fazendo grande e alegre algazarra nos pomares pantaneiros. Frequentador das cozinhas, galpões e das rancharias, leva a alegria da natureza para dentro das nossas moradas.

Por setenta e cinco anos tive o privilégio de me encantar com essa divina sinfonia que foi presente em minha vida desde a mais tenra infância. Vivíamos assim no Pantanal em perfeita harmonia com as belezas e as forças da Natureza. Reconhecíamos nessa relação o nosso papel de varejistas. O grande atacado não estava sob nosso comando. Construímos uma comunidade ordeira e próspera sempre respeitando os nossos limites. Era o paraíso.

Não imaginávamos que o inferno se avizinhava: o desastre provocado pelo assoreamento do rio Taquari, na região do Paiaguás, que trouxe para as nossas vidas grandes prejuízos, materiais e imateriais. Das perdas no plano econômico, a baixíssima produtividade e as mortes de animais que em muito reduziram nossos rebanhos e por consequência a nossa capacidade de investimento nas propriedades. Isto gerou grande dificuldade de manejo, pois as estruturas foram destruídas pela permanente alagação e o trato do rebanho deixou a desejar pelos altos preços dos insumos, tais como: sal mineral, medicamentos, combustível etc.

A mão de obra, os impostos, os juros bancários, os fretes, os serviços terceirizados, a despesa com máquinas operando em condições precárias e os encargos sociais caminharam no sentido inverso dos preços dos nossos produtos, que amargaram por anos uma insuportável defasagem em comparação com os custos de produção.

Essa conjunção de fatores perversos, em anos de inundações consecutivas, a cada ano acumulando problemas, levou à falência inúmeros produtores antes prósperos e competentes. Um milhão e quinhentos mil hectares ficaram mergulhados nas águas administradas pelas forças criminosas que comandaram o Brasil nesses últimos trinta anos. Perderam os pantaneiros e o Pantanal. Perdeu Mato Grosso do Sul. Perdeu o Brasil. Perdemos todos nos planos econômico, social e ambiental.

Ainda que por algum motivo obscuro ou até por milagre se reverta a situação, mesmo assim não haverá atitude humana capaz de reparar tal injustiça. Mas, os prejuízos não ficaram apenas no plano material. Toda a vida da população pantaneira foi afetada de maneira cruel e irrecuperável. Os nossos patrimônios imateriais que faziam a verdadeira riqueza da nossa gente, nós os perdemos nessa catástrofe exterminadora.

Crime impune que a sociedade anestesiada assistiu impassível e omissa. Os nossos costumes baseados na boa vizinhança e que perpassavam gerações se perderam na drástica mudança de comportamento e na própria necessidade de sobrevivência daqueles que teimam em permanecer nestes desertos de cidadania. Saiu a pecuária que deu lugar ao salve-se quem puder. Já não existem as divisórias. Apenas céu e água. Já não se respeita a propriedade, pois muitas fazendas foram abandonadas e servem até mesmo para esconder traficantes e foragidos da justiça. Todos suspeitam que boa parte dessa região se tornou rota do tráfico.

Fomos vítimas dos coureiros em passado recente e agora vemos os nossos peões perdidos nas drogas. Nesse processo de mudança dos costumes e da matriz econômica o pantaneirismo vem sendo abandonado em todas as suas facetas. Vizinhança, camaradagem, interesses comuns, espírito comunitário, parentesco, tudo isso submergiu no lixo das águas criminosas e se transformou na maior perda para todos nós.

Esse é o patrimônio imaterial que perdemos e que se traduz na mais significativa frustração do povo paiaguense. Algum dia o Brasil será um país que cuida dos seus filhos, aí então a História será implacável em seu julgamento.

Neste cenário de orfandade social me restam os tordinhos, companheiros de toda uma vida. O majestoso coral que cantou no amanhecer da minha existência, agora tem a missão de alegrar o meu evidente e irreversível entardecer.

Manoel Martins de Almeida é produtor rural do Pantanal de Corumbá

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