Quinta-feira, 11 de Junho de 2026
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Estado pavimenta último trecho da Estrada Ecológica e projeta sítios arqueológicos

31 mai 2021 - 04h54   atualizado em 03/03/2026 às 09h22

Mariana Conte

Estado pavimenta último trecho da Estrada Ecológica e projeta sítios arqueológicos Estrada-Parque tem grande potencial turístico: asfalto corta a morraria, onde passam o Rio Aquidauana e a antiga ferrovia Noroeste do Brasil (Foto: Chico Ribeiro)

O Governo do Estado concluiu a pavimentação do trecho de 765 metros da MS-450 – Estrada Ecológica que passa pelos vales da Serra de Maracaju, entre os municípios de Aquidauana e Dois Irmãos do Buriti -, em cuja extensão foram localizados sítios arqueológicos nas faixas de domínio que remontam ao período estimado de 10 mil anos.

Com a ocorrência arqueológica, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional) suspendeu inicialmente a pavimentação do trecho, de um total de 18,4 km que estava sendo executado pelo Estado, e um estudo da área foi contratado pela Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos) para posterior liberação da obra de infraestrutura.

Além de concluir o asfaltamento da rodovia de grande apelo ambiental, cultural e turístico, onde a totalidade dos investimentos somam R$ 21 milhões (recursos do Fundersul), o Governo do Estado, em acordo com o Iphan, projeta a construção de um museu a céu aberto no local onde foram encontrados fragmentos pré-indígenas.

Resgate histórico

O museu está sendo implantado com orientação do professor e arqueólogo Gilson Martins, com mais de 30 anos de experiência na área, no pé de um morro que compõe a serra e onde foram encontradas inscrições rupestres. O local fica próximo ao limite dos distritos de Palmeiras (Dois Irmãos do Buriti) e Piraputanga (Aquidauana)

O espaço será composto por sinalização turística e de informações sobre o achado, além de uma pedra de arenito com réplicas das inscrições encontradas nos paredões da morraria. Como uma espécie de identidade do local, as gravuras estão sendo reproduzidas pela artesã aquidauanense Anelise Godoy.

O arqueólogo Gilson Martins destacou o apoio do Governo do Estado para garantir o resgate histórico de um período pós Era do Gelo e a preservação da área, salientando que análise de uma mostra de carvão encontrado ao lado da estrada, feita nos Estados Unidos, indica idade de 10,1 mil anos.

Segundo ele, o período corresponde a ocorrência de animais de grande porte na região, como o tigre-dentes-de-sabre e preguiça gigante, cujos fósseis foram encontrados na Serra da Bodoquena. “São achados expressivos de uma época em que predominaram os caçadores-coletores. Houve grandes transformações ambientais ao longo dos anos, até a chegada dos primeiros seres humanos”, informa.

Gestão do patrimônio

A pesquisa da área de ocorrência arqueológica – cerca de 2,5 km dentro da faixa de domínio da estrada – foi iniciada pelo Governo do Estado durante a pavimentação da MS-450, cuja obra foi entregue no ano passado pelo governador Reinaldo Azambuja. Foram coletadas mais de 200 peças usadas pelos povos ancestrais, como pedra lascada e carvão.

Esse material deverá ser exposto na histórica estação ferroviária de Piraputanga, uma das mais preservadas ao longo da ferrovia, conforme estudo em andamento pelo Governo do Estado, Iphan, prefeitura de Aquidauana e Comitê Gestor da Estrada-Parque.

A Agesul informou que, paralelamente a segunda etapa dos levantamentos arqueológicos registrados - também foram encontrados nas fendas dos morros, onde foi localizado uma espécie de mirante e observatório astronômico -, discute-se a gestão desse patrimônio e sua exploração turística de forma sustentável.

“A proposta de criação de um centro de atendimento ao turista na estação de Piraputanga absorveria esse material arqueológico para visitação pública, incluindo também outras vertentes da história mais recente, como a presença indígena e a Guerra do Paraguai, na figura do Visconde de Taunay, que morou na região”, explica o arqueólogo Gilson Martins.

Turismo sustentável

A MS-450 é classificada como Estrada Ecológica e integra a Área de Proteção Ambiental (APA) de 10 mil hectares, criada em 2000. O complexo e diversificado ambiente exigiu uma intervenção monitorada pela Agesul para cumprimento das exigências da licença ambiental, incluindo o levantamento arqueológico para execução da sua pavimentação.

Com 55 km de extensão, do trevo com a BR-262 (Dois Irmãos do Buriti) a Aquidauana, a rodovia é o principal acesso aos distritos de Palmeiras, Piraputanga e Camisão, privilegiados pelos recursos naturais situados no entorno dos paredões de arenito, ambiente esse cortado pelos trilhos da antiga ferrovia e pelo Rio Aquidauana.

O local recebe pescadores e amantes de esportes radicais, como trilhas e escaladas, e conta com estrutura de hotéis, pousadas e pesqueiros. A chegada do asfalto potencializou a região como destino turístico, atraindo também investidores nos setores de hotelaria e imobiliário, com previsão de grandes transformações econômicas nos próximos anos.

A proximidade com Campo Grande (distante 100 km) e os atrativos naturais para várias atividades de contemplação, pesca, esportes de aventura e lazer, devem tornar a região um dos principais destinos ecológicos do Estado. A prefeitura de Aquidauana já trabalha para reestruturar o turismo local e atrair novos empreendimentos.

“Precisamos de mais leitos e qualificar esse turismo, hoje ainda desordenado”, afirma Youssef Saliba, secretário de Cultura e Turismo. “Novos atrativos estão surgindo, o fluxo de turistas aumentou muito com o asfalto e estamos trabalhando para oferecer um turismo sustentável, com visitas guiadas, como Bonito”, completa.

Uma das peças em arenito, com reprodução de registros rupestres, vai compor o museu a céu aberto a ser instalado ao lado da estrada Foto: Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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