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06 maio 2020 - 10h18

A ninguém é dado interferir na utilização do patrimônio alheio. Qualquer pensamento nesse sentido não se coaduna com o direito legítimo de cada cidadão sobre seus bens.

Outra coisa é concordar com campanhas equivocadas como essa de aceitação da calamidade taquarizana como algo definitivo e que esteja indicando a existência de um novo e maravilhoso Pantanal.

Todo e qualquer cidadão deste Estado, medianamente informado, tem plena consciência dos fatos relativos ao assoreamento do Rio Taquari, das suas causas e dos seus efeitos. Por outro lado, quem acompanhou esse violento processo erosivo do planalto, e suas consequências na planície, sabe perfeitamente que se trata de um processo dinâmico, de consequências mais do que previsíveis.

Dizer que surgiu um novo e magnífico Pantanal no Paiaguás é afirmar que a catástrofe beneficiou a região e que devemos desejar que ela se repita. Teríamos, assim, uma nova e esdrúxula política ambiental para a planície, que não visaria sua preservação, pois, com o passar dos próximos anos, sem que tenhamos tomado providências, teremos novos Xaraiés, sem dúvida.

Apenas não sabemos precisar em qual região. Na Nhecolandia? No alto Paiaguás? O atual Xaraiés vai permanecer? A planície toda vai se tornar o lendário Mar de Xaraiés?

Então, outras centenas de famílias serão expulsas, novas áreas deixarão de produzir e caberá à Natureza revelar, mais uma vez, a nossa incapacidade de ver o óbvio?

Senhores, o que se evidencia segundo essa visão oportunista e criminosa é que esse não será mais o Pantanal de que falamos e sobre o qual já se legislou à exaustão. Não será esse o Pantanal que a Constituição Federal considera um Patrimônio Nacional. Não será esse o Pantanal que recebemos dos nossos antepassados.

Não queremos isso, não é mesmo? Penso que o nosso desejo é ver o Rio Taquari recuperado e piscoso e a nossa planície repleta de gado. Penso que o nosso sonho é ver as antigas roças das colônias produzindo com fartura. Penso que o nosso objetivo é ver novamente as lanchas apitando em nossos portos, trazendo mercadorias e pessoas felizes trabalhando para o nosso país.

Penso que as crianças ribeirinhas precisam desse rio para que tenham acesso à educação e saúde. Penso que o turismo ainda será uma grande e promissora atividade dentro da planície. O turismo de contemplação, o turismo de pesca e o turismo rural.

Entretanto, para que todas essas vocações pantaneiras prosperem hão que existir o Rio Taquari e o Pantanal, e esse alagado chamado Paiaguás de Xaraiés é nada mais que um triste e indesejável simulacro dele.

O esforço despendido nessa louca e perigosa mentira poderia ser direcionado na busca da recuperação do rio, da planície pantaneira e da dignidade do seu povo.

 

Manoel Martins de Almeida
Produtor rural no Pantanal de Corumbá

 

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