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COLUNA

Entrelinhas

Anne Andrea Fonseca de Andrade

O papel que embrulha corpos

O Estado brasileiro prefere o conforto dos relatórios à urgência da vida

16 fevereiro 2026 - 10h34

 

O Brasil consolidou uma obsessão perigosa: a crença de que o papel substitui a proteção. Planos decenais, decretos pomposos e protocolos de intenção são anunciados como soluções definitivas. Na prática, funcionam como registro formal da omissão.

Diante de cada tragédia anunciada, o ritual se repete. Abrem-se sindicâncias, instalam-se comissões, produzem-se relatórios extensos. O Estado escreve. A violência continua.

Feminicídios e filicídios não são raios em céu azul. São o desfecho de processos longos de negligência institucional. Alertas se acumulam em delegacias, conselhos tutelares e prontuários médicos. Nada se integra. Nada se antecipa. Persiste a explicação confortável de que tudo não passou de “tragédia passional” ou “surto individual”. É uma semântica conveniente, pois, se o crime é tratado como exceção psicológica, o poder público fica isento de responsabilidade.

Mas não há paixão no controle. Há poder. O agressor que transforma a família em propriedade e os filhos em instrumento de vingança não age movido por emoção súbita, mas por uma lógica de domínio que costuma deixar rastros. O problema é que esses rastros raramente se conectam.

O paradoxo é evidente. O mesmo Estado capaz de rastrear transações financeiras em segundos alega limitações para cruzar informações sobre acesso a armas, histórico de ameaças e sinais de desestruturação grave. A tecnologia avança para arrecadar. A prevenção permanece lenta quando o assunto é salvar.

A fragmentação institucional tornou-se um álibi permanente. A Saúde diagnostica. A Polícia registra. A Justiça processa. Cada setor cumpre sua parte isoladamente. Entre esses compartimentos, vidas se perdem.

Enquanto isso, investe-se energia considerável na administração de narrativas públicas. Multiplicam-se campanhas, slogans e apresentações otimistas. Governar passa a ser, muitas vezes, o exercício de organizar percepções. O funcionamento real fica em segundo plano.

Em períodos festivos, o contraste se torna ainda mais visível. O Estado demonstra eficiência para organizar eventos, controlar multidões e proteger o espetáculo. Mas falha em enxergar o risco silencioso dentro de casa. Funciona para a cena pública. Hesita na proteção privada.

A omissão não é um acidente administrativo. É uma escolha reiterada. Cada alerta ignorado é uma decisão de adiar o enfrentamento. Cada dado que não conversa com outro sistema é uma opção por manter a fragmentação.

Enquanto a burocracia for tratada como virtude em si mesma, continuaremos reagindo depois do desastre. O país segue acumulando relatórios sobre mortes que poderiam ter sido evitadas.

Papéis não salvam vidas. No máximo, atestam, com o carimbo do atraso, aquilo que o Estado se recusou a impedir.

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