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COLUNA

Entrelinhas

Anne Andrea Fonseca de Andrade

O golpe que expõe a Justiça

Quando dados públicos viram ferramenta de fraude

21 janeiro 2026 - 11h41

A mensagem chega com nome completo, número do processo e uma boa notícia: valores foram liberados. Para receber o dinheiro, porém, é exigido um pagamento antecipado. É assim que começa uma fraude que tem feito vítimas em todo o país.

Em muitos casos, o esquema vai além do uso de dados processuais. Criminosos passaram a utilizar o nome e até a foto de advogados reais, retiradas de sites, redes sociais ou perfis profissionais. O número de telefone é diferente, mas a identidade parece legítima. Para o cliente, a confiança é imediata.

Quem recebe esse tipo de mensagem raramente desconfia no primeiro contato. O processo existe, os dados conferem, a linguagem é técnica. A expectativa de receber um valor aguardado há meses ou anos acelera a decisão. O prejuízo vem depois, acompanhado de frustração e, muitas vezes, de vergonha em relatar o ocorrido.

Esse tipo de fraude não se explica por ingenuidade das vítimas. Ele se sustenta na circulação ampla de informações judiciais e dados pessoais. O processo é público, o nome do advogado também. O que falta ao cidadão comum é saber, na prática, como se dá uma comunicação legítima entre advogado e cliente.

A publicidade dos atos processuais é um princípio democrático e não está em discussão. O problema surge quando a transparência ocorre sem mecanismos simples de proteção e verificação. Nesse cenário, dados oficiais e identidades profissionais acabam sendo usados para dar aparência de legalidade a crimes cada vez mais sofisticados.

A digitalização do Judiciário ampliou o acesso, mas não veio acompanhada de instrumentos claros de orientação ao jurisdicionado. O Executivo responde, em geral, com alertas pontuais. O Legislativo ainda discute crimes digitais com ferramentas pensadas para uma realidade mais lenta do que a tecnologia atual.

O impacto é duplo. Para a vítima, há perda financeira, sensação de impotência e dificuldade de reverter o dano. Para os advogados, há desgaste profissional e quebra de confiança com seus próprios clientes, mesmo sem qualquer participação no esquema.

É preciso reiterar o básico. Valores judiciais não são liberados por aplicativos de mensagens nem mediante transferências antecipadas sem documentação formal. Advogados não solicitam pagamentos dessa forma. Procedimentos legítimos seguem canais oficiais e verificáveis.

Ainda assim, nenhuma orientação individual resolve o problema sozinha. A proteção do cidadão exige gestão mais cuidadosa da exposição de dados sensíveis, canais simples de verificação e informação clara e permanente.

A transparência é um valor essencial. Mas, sem proteção adequada, pode se transformar em ferramenta para a fraude. E o custo acaba recaindo sobre quem mais confia no sistema de Justiça.

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