A viagem começa bonita. O horizonte se abre, o verde acompanha o trajeto e o céu sugere tranquilidade. Mas, após alguns quilômetros na BR-262, a promessa se rompe.
A paisagem segue linda. A estrada, não.
A partir de Miranda, o asfalto muda de comportamento. Não é impressão subjetiva, é sensação concreta. O volante exige mais atenção, o carro perde estabilidade, o olhar passa a antecipar buracos e ondulações. Quem percorre esse trecho sabe: não se dirige com naturalidade. Conduz-se em estado de alerta.
O fluxo de caminhões carregados aumentou e isso é um dado objetivo. A rodovia passou a suportar peso, frequência e demanda muito maiores do que no passado. Esse crescimento é consequência do desenvolvimento logístico, mas torna-se um problema quando a manutenção não acompanha a mudança. Nesse ponto, o desgaste deixa de ser técnico e passa a ser político.
O que se vê no chão confirma isso: uma sucessão de remendos, soluções provisórias que apenas adiam o inevitável. Cada desnível revela uma intervenção que falhou em cumprir sua função básica. Não se trata de erosão natural, mas de exaustão provocada pela negligência continuada.
Quem passa percebe. Caminhoneiros desviam para preservar o veículo. Motoristas reduzem a velocidade em trechos sem visibilidade adequada. Ônibus balançam além do razoável. Não é uma discussão sobre conforto; é uma questão de risco cotidiano.
Corumbá ainda é tratada como fim de linha? Não no sentido geográfico, mas no das prioridades. Como se, depois de certo ponto, o risco fosse aceitável porque atinge sempre os mesmos.
Não falta diagnóstico. Não faltam relatos.
Falta decisão.
Quando o abandono se estende por quilômetros, deixa de ser falha pontual e passa a ser escolha administrativa. O improviso vira método, e a insegurança, rotina.
A estrada entristece porque revela uma lógica perigosa: a de que algumas regiões podem esperar mais, suportar mais, arriscar mais.
Quantos acidentes ainda precisam acontecer?
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