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COLUNA

Entrelinhas

Anne Andrea Fonseca de Andrade

A riqueza que não se transforma em futuro

A cidade assentada sobre uma das maiores reservas minerais do mundo e ainda à espera de infraestrutura básica.

26 fevereiro 2026 - 10h28

O Maciço do Urucum abriga um dos maiores depósitos de minério de ferro e manganês do planeta. Localizado em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, a poucos quilômetros da fronteira com a Bolívia e no coração do Pantanal, ele sustenta uma das principais cadeias produtivas da região. Nos últimos anos, o município passou a figurar entre os maiores arrecadadores de Compensação Financeira pela Exploração Mineral no Estado. Projetos de expansão seguem em curso. O dinheiro entra. A cidade, no entanto, conta outra história.

Quem circula pelas ruas de Corumbá conhece a distância entre os números e a realidade. A infraestrutura é frágil, os serviços públicos operam sob pressão e as oportunidades econômicas permanecem limitadas para grande parte da população. A riqueza aparece nos balanços oficiais. No cotidiano dos moradores, nem sempre.

O problema não é exceção. É padrão. E está se tornando cada vez mais visível.

Nos últimos anos, a operação ferroviária responsável pelo escoamento do minério foi gradualmente reduzida. A histórica Malha Oeste, que por mais de um século conectou Corumbá a outros centros do país, perdeu relevância e capacidade operacional. A recuperação integral da linha enfrenta elevado custo estimado, e os novos modelos de concessão ainda não apresentaram solução definitiva.

Com a redução do transporte ferroviário, o minério passou a depender das rodovias. O fluxo de caminhões na BR-262 e nas vias que levam a Porto Esperança aumentou de forma significativa. O que antes seguia por trilhos passou a pressionar pontes, estradas e comunidades que não foram preparadas para essa mudança.

Moradores registram reclamações. Órgãos de controle acompanham a situação. Estruturas projetadas para outro perfil de tráfego passaram a suportar um volume elevado de cargas.

A alternativa em discussão é o fortalecimento do transporte pelo Rio Paraguai, integrado à Hidrovia Paraguai-Paraná. Projetos de ampliação do transporte fluvial seguem em debate e dependem de etapas regulatórias e ambientais próprias desse tipo de intervenção. A meta é elevar o volume exportado. O próprio Rio Paraguai, porém, já demonstrou sua vulnerabilidade. A seca histórica de 2024 comprometeu a navegação e impactou a dinâmica econômica regional. A expansão depende justamente da estabilidade desse mesmo sistema natural.

A logística do minério tornou-se, assim, um espelho da gestão pública: soluções emergenciais, pouco planejamento de longo prazo e transferência indireta de custos para a população. O setor produtivo avança. A cidade absorve os impactos.

A legislação determina que os recursos da CFEM devem priorizar investimentos estruturantes. Na prática, receitas extraordinárias tendem a ser diluídas em custeio, expansão administrativa e obras fragmentadas. Pouco sobra para transformar a realidade urbana.

Existem iniciativas sociais e parcerias pontuais. São importantes, mas limitadas diante da escala da atividade. Os investimentos mais robustos em saneamento, pavimentação e educação têm origem, em grande parte, em recursos estaduais. O retorno direto da mineração permanece aquém do esperado.

A transparência formal não tem sido suficiente. Publicar dados atende à legislação, mas não garante compreensão. A população tem o direito de saber quanto entra, como é gasto e quais benefícios concretos são entregues. Sem clareza, cresce a desconfiança.

Há ainda o risco da dependência fiscal. A arrecadação mineral oscila conforme o mercado internacional. Municípios que não diversificam sua economia tornam-se vulneráveis a essa volatilidade.

Por isso, é urgente discutir a criação de um fundo permanente com parte das receitas da mineração, voltado à educação, qualificação profissional, diversificação econômica e infraestrutura. Preparar a cidade para o período pós-mineração não é opção. É responsabilidade.

O minério do Urucum não é eterno. A vida das pessoas que moram aqui, sim.

A mineração é finita. O território permanece. E as escolhas feitas hoje serão herdadas pelas próximas gerações.

Quando uma cidade assentada sobre uma das maiores reservas minerais do mundo convive com estradas sobrecarregadas, infraestrutura pressionada e serviços públicos insuficientes, o problema não é natural. É consequência de decisões, fragilidades institucionais e ausência de planejamento.

Cada real extraído do subsolo carrega uma responsabilidade pública.

Riqueza não é o que se tira da terra.
É o que se constrói sobre ela.

Corumbá tem todos os recursos para ser uma cidade próspera, justa e sustentável. A pergunta é simples: por que ainda não é?

*Foto de Chico Ribeiro/Arquivo

Artigo de Anne Andrea Fonseca de Andrade, Advogada

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