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'NÃO CONTE QUE SOU SIMPÁTICO'

16 abril 2020 - 08h53

Não poderíamos deixar de registrar  nossa admiração e homenagem ao escritor Rubem Fonseca, dono de um estilo literário incomparável, autor de clássicos atemporais da literatura brasileira. Rubem Fonseca, morreu na tarde de ontem, quarta-feira, 15, aos 94 anos, decorrente de um infarto, mas sua obra permanece viva, ele merece ser lembrado, reverenciado e nunca esquecido em prateleiras de uma biblioteca. 

A coluna Entrelinhas de hoje, reproduz texto escrito por  Ruan de Sousa Gabriel, da revista Época, em entrevista à heloisa Jahn, tradutora e ex-editora da Companhia das Letras. Em seu depoimento, ela relata o convívio profissional com o escritor ao longo de uma década. Boa leitura!

*

RUBEM FONSECA: 'NÃO CONTE PARA NINGUÉM QUE SOU SIMPÁTICO'

Editei o Zé Rubem desde que ele entrou na Companhia das Letras, em 1988, até ele deixar a editora, em 2007. Lembro de quando ele apareceu na editora um dia para uma primeira reunião com o Luiz (Schwarcz, presidente do Grupo Companhia das Letras). Na época, éramos três editoras na Companhia: a Maria Emilia Bender, a Marta Garcia e eu.

Quando chegava um novo autor, o Luiz escolhia uma de nós para editá-lo. Ele então me chamou para participar da reunião com o Zé Rubem. Não me recordo muito da reunião, mas sim da emoção que senti, porque lia Rubem Fonseca desde os meus 15, 16 anos.

Tive um professor de literatura na escola, em Porto Alegre, nos anos 1960, que era espetacular. Ele se chamava Carlos Jorge Appel, era jovem, tinha 30 e poucos anos, e fez uma lista de sugestões de leitura para seus alunos adolescentes com toda a nova literatura brasileira. Nós, que gostávamos de literatura, mergulhamos naqueles autores.

Lá estava Rubem Fonseca, que tinha uma contundência muito nova, uma modernidade. Era uma literatura próxima, que abria nossa percepção de mundo. Lembro da sensação de poder de dialogar com aquela literatura cinematográfica, com aquela linguagem viva e sem enfeite, que expunha uma violência que não conhecíamos na nossa vidinha protegida de classe média, mas que reconhecíamos como verdadeira. Li “Os prisioneiros”, “Coleira de cão” e “Lúcia McCartney” e depois “Feliz ano novo”, “O cobrador” e os outros.

Rubem Fonseca em uma de suas caminhadas pelo bairro do Leblon, em 2005. Foto: Michel Filho

Quando passei a editá-lo, fiquei muito feliz. Foi como encontrar... Não, não posso usar a palavra “mito” (risos). Foi como encontrar alguém que admirava muito. A gente se deu muito bem, simpatizamos um com o outro e curtimos trabalhar juntos. Ele era um homem engraçado, atento e cuidadoso. O trabalho de edição só dá certo quando se cria uma intimidade especial entre o autor e o editor.

Quando a admiração do editor se sobrepõe, não dá certo. Também não dá certo quando o autor é autoritário. É preciso um tipo especial de amizade, em que tudo é dito e nada é manipulado. Ao me tornar editora do Zé Rubem, a admiração distanciada se transformou numa intimidade que nos permitia falar com liberdade sobre o texto. Saiu a admiração, entrou a parceira.

Eu lia os manuscritos – na época ainda líamos no papel – e anotava tudo, de emendas a palpites. Depois, ia ao Rio de Janeiro e fazia reuniões na casa dele. O Zé Rubem era respeitoso e ouvia com atenção minhas ideias. Aceitava grande parte delas e, quando não aceitava, se justificava de uma forma muito interessante.

Rubem Fonseca em 1975: considerado por muitos o maior contista do país. Foto: Paulo Moura / Acervo O Globo

Eu estranhava, por exemplo, algumas construções lusitanas que ele usava muito, como “estou a andar” em vez de “estou andando” e a preferência dele pela ênclise no lugar da próclise, como “sinto-me” em vez de “me sinto”.

Sugeri que ele alterasse essas construções nos diálogos, porque não me soavam coloquiais. Ele me respondeu: “Você tem que entender que eu sou filho de portugueses. Era assim que se falava na minha casa e essa se tornou a minha língua.” Depois disso, passei a achar ênclises perfeitamente coloquiais.

Lembro de um aconteceu um outro episódio, que aconteceu nesse mesmo dia. Passamos a tarde toda trabalhando e fomos ficando cansados. Eu disse: “Zé Rubem, você não acha que podíamos tomar outro café?” Ele tinha me oferecido um café quando cheguei. “Vou lá fazer”, ele respondeu.

O Zé Rubem gostava de cultivar uma imagem de cara difícil e fechado, mas, naquela tarde, indo para cozinha, ele se virou de repente e, com um sorriso maroto, me pediu: “Você não conte para ninguém que eu sou assim simpático”. Agora acho que já posso contar.

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